
A evolução da Agenda ESG frente aos desdobramentos da Geopolítica Mundial
Décio Luís Schons, CIEAI, CEGRC, CIGR, CISI
General-de-Exército da Reserva. Vice-Presidente de Operações de Consultoria da empresa Brasiliano INTERISK
Fevereiro | 2026
A Agenda ESG surgiu no início dos anos 2000, como resposta a preocupações ligadas às mudanças climáticas antropogênicas, visando à sustentabilidade em suas diversas expressões e a uma governança que lhe proporcionasse viabilidade. Em 2004, a ONU e o Banco Mundial lançaram o relatório “Who Cares Wins”, fruto de uma provocação do então secretário‑geral da ONU, Kofi Annan, a algumas grandes instituições financeiras. Esse documento introduziu o termo ESG e propôs que bancos e investidores incorporassem critérios ambientais, sociais e de governança em suas análises. Já em 2006, o lançamento do documento “Princípios para o Investimento Responsável (PRI)”, também apoiado pela ONU, viria a consolidar o movimento de integração da Agenda ESG ao mercado financeiro.
Nos anos que se seguiram, a Agenda ESG ganhou renome e importância, passando a desfrutar de uma boa acolhida por parte da opinião pública. Como nem tudo é perfeito, logo surgiram os adeptos do Greenwashing, prática enganosa de marketing em que algumas empresas se apresentam como ambientalmente responsáveis ou sustentáveis, quando suas ações, na prática, não correspondem ou até mesmo contradizem tal discurso. Tudo isso, naturalmente, com o objetivo de atrair consumidores conscientes e melhorar a imagem da marca, sem o propalado compromisso real com o meio ambiente.
Sem surpresa nenhuma, tais ações antiéticas, ao enganar o consumidor e semear a desconfiança em relação à Agenda ESG, prejudicaram as empresas genuinamente sustentáveis e contribuíram para desviar a atenção das mudanças reais necessárias para enfrentar os desafios climáticos que se anunciavam. Some-se a isso o negacionismo movido por fatores econômicos, políticos ou ideológicos e teremos o panorama que passamos a enfrentar no dia a dia da análise e gestão de Riscos ESG.
O que vemos na atualidade é o despontar de novos e relevantes fatores associados ao tema, tais como a segurança energética, o acesso a alimentos, a estabilidade regional e a dependência tecnológica. Não mais se trata de ter controle apenas sobre as emissões de carbono e suas consequências – hoje o objeto se expandiu para abranger as fontes de geração de energia, a extração e utilização de minerais críticos, o domínio das rotas comerciais, além da produção e utilização de dados.
Mudanças de vulto na Geopolítica Mundial vêm influenciando de forma exponencial a tomada de decisões na área de sustentabilidade. Diversos fatores vêm provocando o reestudo dos riscos ESG, sejam eles negativos ou positivos, com um olhar crítico sobre suas definições, e sobre a própria noção de sustentabilidade. Dentre esses fatores, podemos enumerar: os recentes conflitos envolvendo, de forma mais ou menos clara, a disputa por recursos naturais; a aceleração experimentada pela transição energética; e as alterações ocorridas nas cadeias globais de suprimento. Por outro lado, o avultamento dos riscos geopolíticos em razão das novas ameaças que povoam o ambiente internacional, em particular daquelas relacionadas a conflitos armados, gerou a remoção de algumas preocupações ambientais imediatas da lista de prioridades de curto prazo.
Com relação à transição energética, podemos verificar que a opção pela utilização de energias limpas deixou de ser apenas uma meta ambiental para se tornar uma questão de segurança nacional para diversos países. O imperativo da segurança energética vem fazendo com que esses países passem a priorizar a diversificação de fontes, de forma a evitar a dependência de parceiros pouco confiáveis. Se isso parece trabalhar na direção da sustentabilidade, ao trazer para o dia a dia a utilização de energias limpas, por outro lado proporciona uma sobrevida aos combustíveis fósseis em países que visam à estabilidade econômica em curto prazo para fazer face a eventuais crises externas.
Ultimamente, vem sendo abordado o conceito de Multipolaridade Verde (Green Multipolarity em inglês) para descrever um cenário cada vez mais realista, em que o poder global relacionado à transição ecológica é distribuído entre vários países ou blocos, e não mais concentrado em apenas um ou dois atores. Nesse cenário complexo, pesa certamente o retorno do governo dos EUA a uma postura de cunho nacionalista e utilitarista que trouxe consigo uma resistência política às pautas ambientais, não só naquele país como também em outros, cujos governos compartilham da mesma visão. O mercado foi então levado a encarar a agenda ESG como estratégia de risco financeiro e não mais como produto de uma postura ideológica de cunho preservacionista, voltada essencialmente para a defesa do meio ambiente. Some-se a isso a entrada da China como protagonista nessa disputa, ao consolidar-se como líder na produção de tecnologias verdes (baterias e painéis solares, por exemplo), passando a moldar seus próprios padrões ESG no contexto da iniciativa Belt and Road 2.0.
Assim sendo, parece natural que o foco da agenda ESG, antes percebido claramente como colocado no Meio Ambiente (a letra E da sigla ESG, da palavra em inglês Environment), tenha migrado para a Governança (a letra G da sigla ESG). O motivo é exatamente a necessidade de gerenciar riscos complexos nas cadeias de suprimentos globais em ambientes cada vez mais imprevisíveis, em particular no que diz respeito ao Compliance Geopolítico (monitoramento de sanções, leis de trabalho forçado e segurança cibernética) e às realocações de capital, com a retirada de recursos dos fundos sustentáveis globais para serem investidos em setores estratégicos, como minerais críticos e biocombustíveis.
É interessante observar a existência de estudos que apontam as empresas com fortes compromissos ESG como sendo dotadas de maior resiliência financeira durante períodos de alta volatilidade geopolítica. As causas para esse aumento de resiliência seriam, basicamente: o esmero na gestão de riscos financeiros e não financeiros; uma estrutura de governança mais robusta; cadeias de suprimentos diversificadas e sustentáveis; e um relacionamento sólido e responsável com os stakeholders. A Agenda ESG, nesse caso, funcionaria como uma espécie de seguro contra riscos externos.
A partir daí, como é fácil concluir, ganha força a noção de que a Agenda ESG precisa incorporar, com todas as letras, estudos aprofundados de Economia, Segurança e Geopolítica. A lógica subjacente é de que não há sustentabilidade sem resiliência, nem resiliência sem que sejam tomados em consideração os riscos geopolíticos (conflitos internacionais, sanções econômicas, bloqueios de fornecimento de energia, migrações forçadas e assim por diante).
Como vemos, a Agenda ESG está deixando de ser apenas um agregado de compliance e reputação para adquirir todos os contornos de uma estratégia de sobrevivência em um mundo instável. A pauta de gestão de Riscos ESG marcha, seguramente, na mesma direção, rumo a um aumento expressivo de complexidade e relevância.
