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Agenda ESG – Como avançar num mercado em permanente

Agenda ESG – como avançar num mercado em permanente e veloz transformação?

Décio Luís Schons,  CIEAI, CEGRC, CIGR, CISI
General-de-Exército da Reserva. Vice-Presidente de Operações de Consultoria da empresa Brasiliano INTERISK

Setembro | 2025

 

Os aspectos que envolvem a evolução da Agenda ESG nos últimos anos constituem um tema de estudo interessante. Vivíamos até há pouco tempo, em relação a esse tema, um ambiente de euforia em que os cuidados com a sustentabilidade pareciam ter adquirido uma posição de muita força. Nesse período, chegava a soar quase como blasfêmia o fato de algum representante de empresa de expressão manifestar-se contra a aplicação desses princípios na gestão diária do negócio. Hoje, em decorrência do desgaste causado por ações demagógicas e irresponsáveis por parte de algumas empresas de grande expressão, tem-se a impressão de que o entusiasmo cedeu lugar ao desânimo e ao descrédito.

 

Vamos estudar brevemente o porquê dessa inflexão na curva de atenção dispensada à temática da sustentabilidade em nível mundial e em que pé estamos hoje naquilo que diz respeito a essa temática.

 

Em primeiro lugar, temos os efeitos negativos trazidos pela prática do greenwashing por parte de algumas empresas que usavam o tema ESG como alavancagem de marketing, sem desencadear ações concretas. Muitos consumidores e investidores ficaram decepcionados e revoltados ao tomar consciência de tais práticas nefastas e desprovidas de ética por parte dessas empresas. A consequência foi uma onda de desconfiança e ceticismo seguida pela enfática cobrança por transparência e métricas realistas, o que exige mais esforço e investimento da parte daqueles que se dispõem a implementar a Agenda ESG em suas organizações.

 

Na sequência, aparece a problemática da polarização política e ideológica. Países em que os governos assumiram posturas críticas em relação às políticas ESG estão sofrendo um enfraquecimento severo das regulamentações ambientais e sociais. Na tentativa de manter o alinhamento com esses Estados, grandes redes bancárias recuaram de compromissos climáticos solenemente assumidos, como o Net-Zero Banking Alliance. Isso gerou um efeito dominó, uma vez que as empresas passaram a temer represálias políticas ou a perda de apoio de investidores mais conservadores alinhados à política estatal caso continuassem na linha da sustentabilidade.

 

Por outro lado, também é necessário dizer que os últimos anos têm sido pródigos em desafios econômicos os mais diversos, com inflação fora da curva, juros altos e instabilidade global, obrigando muitas empresas a priorizar a sobrevivência financeira. Em consequência, os investimentos em sustentabilidade tiveram que ser adiados ou reduzidos, especialmente em setores com margens apertadas e prioridades imediatas a atender.

 

Completando a série de fatores condicionantes para o aparente enfraquecimento do discurso relacionado à Agenda ESG, podemos citar a falta de padronização e de métricas confiáveis. Ainda há muita confusão sobre como medir e reportar ESG. A ausência de padrões globais dificulta a comparação entre empresas e setores.

 

No Brasil, a CVM desencadeou uma série de providências, muitas delas ainda em curso, visando à implementação de um padrão a ser seguido por todas as empresas no trato da Agenda ESG. As cinco resoluções publicadas pela CVM entre 2023 e 2025 exigem transparência e reporte de riscos ESG por parte das empresas de capital aberto. Essas normas estão alinhadas aos padrões internacionais, que obrigam as empresas a mostrar como lidam com riscos climáticos e sociais. A partir de 2026, será obrigatório divulgar relatórios financeiros integrados com métricas ESG, processo que será seguido por todas as empresas que fazem parte da cadeia de suprimentos.

 

Na verdade, a gestão de riscos ESG passa por uma transformação que vai muito além do discurso corporativo. O setor empresarial vem sendo pressionado por novas regulamentações, investidores mais exigentes e consumidores muito mais conscientes e atentos – fatores de peso que provocam uma profunda mudança na forma como riscos ambientais, sociais e de governança são tratados.

 

O foco da Agenda ESG está hoje na adaptação climática e na resiliência, em razão de os eventos extremos, como enchentes e secas, estarem se tornando cada vez mais frequentes. Dessa forma, a gestão de riscos ESG vem incorporando em seus controles estratégias de sobrevivência e as empresas são agora estimuladas a mapear riscos sistêmicos, como desastres naturais, e a desenvolver planos de adaptação (não apenas de mitigação).

 

Infelizmente, temos ainda um sério descompasso entre o discurso e o que acontece na prática: embora 91% das empresas brasileiras informem a priorização da gestão dos riscos ESG, quase metade delas não publica dados ESG em seus relatórios, apenas 20% das empresas têm plano de compensação de carbono e 43% sequer fazem inventário de gases de efeito estufa.

 

A despeito de todos esses aspectos negativos, percebe-se hoje uma considerável pressão sobre a cadeia de valor no sentido de tornar realidade as promessas e os planejamentos de implementação de programas de sustentabilidade. Grandes empresas estão sendo responsabilizadas pelos impactos socioambientais de seus fornecedores e para atender às exigências legais faz-se necessário que haja rastreabilidade, compras sustentáveis e mecanismos de controle que vão muito além da simples cobrança por indicadores.

 

Em resposta à pergunta colocada no título deste escrito, podemos dizer que há de fato uma mudança de ritmo na agenda ESG, especialmente em alguns mercados internacionais. Mas essa desaceleração não significa que o tema tenha perdido relevância. Conforme tivemos oportunidade de explanar, o que está acontecendo é uma reconfiguração das prioridades e das narrativas.

 

A Agenda ESG não está, portanto, deixando de existir, nem ao menos ficando fora de moda — está, na verdade, amadurecendo. No Brasil, a Agenda ESG continua forte, com destaque para cadeias de valor responsáveis, agricultura regenerativa e transição energética. Investidores mais jovens continuam a valorizar as empresas dotadas de práticas ESG, mesmo que o entusiasmo tenha caído um pouco. A tendência, portanto, a partir de agora, é que tenhamos menos discurso e mais ação concreta, com foco em rastreabilidade, impacto real e engajamento genuíno de toda a cadeia de valor.

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