top of page
Como as empresas podem transformar o risco geopolítico em vantagem competitiva.png

Como as empresas podem transformar o Risco Geopolítico em vantagem competitiva?

Izan Araujo

Geógrafo e analista de risco geopolítico. Mestre em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo (USP), com concentração em Geografia Política. Mestre em Relações Internacionais pela University of Chicago. É pesquisador do Laboratório de Geopolítica, Relações Internacionais e Movimentos Antissistêmicos (LabGRIMA), da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Atualmente atua como Head de Risco Geopolítico na Brasiliano INTERISK. Contato: iaraujo@brasiliano.com.br

Junho | 2026

Introdução

Como as empresas podem transformar os riscos geopolíticos em vantagens competitivas em um mundo marcado por guerras, sanções, disputas comerciais e instabilidade nas cadeias de suprimentos?

Essa questão tornou-se ponto nevrálgico para executivos, investidores e gestores de risco, na medida em que os eventos globais afetam cada vez mais não apenas os governos, mas também as organizações. Nos últimos anos, organizações de diferentes portes e setores têm sido diretamente impactadas por fatores como sanções econômicas, conflitos regionais, rivalidade entre grandes potências, disrupções da cadeia de suprimentos, tarifas comerciais e disputas por minerais críticos. Como resultado, o risco geopolítico deixou de ser um tema circunscrito ao campo diplomático e militar e passou a ocupar posição central nas agendas do conselho de administração e da alta gestão das empresas. Segundo o Relatório de Riscos Globais 2026 do Fórum Econômico Mundial, líderes precisam navegar tanto crises imediatas quanto riscos de longo prazo em um ambiente cada vez mais turbulento.

O risco geopolítico pode ser transformado em vantagem competitiva quando as empresas antecipam ameaças antes de seus concorrentes, adaptam suas cadeias de suprimentos com maior resiliência e incorporam a consciência situacional à tomada de decisão em um cenário global incerto. Para começar, empresas que conseguem antecipar ameaças geopolíticas de forma eficaz podem se posicionar à frente da concorrência.

 

1. Antecipação de riscos geopolíticos

Em primeiro lugar, as empresas transformam riscos geopolíticos em vantagens competitivas quando desenvolvem a capacidade de antecipar ameaças. Em vez de reagir apenas depois de uma crise, organizações mais bem preparadas monitoram sinais geopolíticos, econômicos e regulatórios. Por exemplo, tensões no Oriente Médio, sanções contra empresas chinesas ou bloqueios de rotas marítimas podem indicar futuros aumentos de custos, atrasos logísticos ou restrições de mercado. O caso da Hengli, uma grande empresa petroquímica chinesa afetada por sanções dos Estados Unidos, mostra como processos críticos das empresas, incluindo contratos, investimentos, cadeias de suprimentos e operações internacionais, podem ser impactados pela confrontação geoeconômica, como sanções e restrições comerciais. Assim, empresas que acompanham esses sinais podem ajustar antecipadamente seus contratos, estoques, seguros e fornecedores.

Board Oversight of Geopolitical Risk O gráfico 1 acima mostra que o risco geopolítico foi classificado como a principal preocupação externa pelos CFOs europeus em 2025. Segundo a Deloitte, a geopolítica foi identificada por 90% dos respondentes como um dos três riscos empresariais mais significativos, marcando o nível mais alto desde 2015. Isso sugere que as empresas veem cada vez mais a geopolítica como uma ameaça direta às suas operações, custos, cadeias de suprimentos e planejamento estratégico. O gráfico destaca como as tensões geopolíticas moldam a tomada de decisão corporativa e reforça a necessidade de uma gestão de riscos proativa em um cenário global incerto para garantir a continuidade dos negócios. Além de antecipar ameaças, as empresas podem fortalecer suas posições competitivas ao construir cadeias de suprimentos mais resilientes.

 

2. Resiliência nas cadeias de suprimentos

 

Em segundo lugar, a vantagem competitiva surge quando uma empresa transforma sua cadeia de suprimentos em uma estrutura resiliente. A dependência excessiva de um único país, porto, fornecedor ou rota logística aumenta as vulnerabilidades operacionais. Portanto, empresas competitivas diversificam seus fornecedores, criam estoques estratégicos, adotam nearshoring[1], revisam rotas comerciais e desenvolvem planos de contingência. Segundo uma análise da Thomson Reuters, a gestão da cadeia de suprimentos foi considerada uma prioridade estratégica por 68% dos profissionais de comércio internacional em 2026, quase o dobro do percentual do ano anterior. Esses dados mostram que a gestão da cadeia de suprimentos deixou de ser apenas uma função operacional e tornou-se parte da estratégia corporativa.

 

[1] Nearshoring consiste na transferência de fornecedores, produção ou operações para países geograficamente mais próximos dos mercados consumidores, com o objetivo de reduzir vulnerabilidades logísticas, custos de transporte e exposição a riscos geopolíticos.

Fonte: Deloitte. (2025). Board Oversight of Geopolitical Risk.

 

 

 

O gráfico 2 acima, retirado do relatório Board Oversight of Geopolitical Risk, da Deloitte, mostra que vários riscos geopolíticos estão sendo monitorados simultaneamente pelas empresas, com a política comercial global e as interrupções nas cadeias de suprimentos ocupando o primeiro lugar, com 77%. Incidentes cibernéticos aparecem como a segunda preocupação, seguidos por disrupção tecnológica, instabilidade política e crescente incerteza nas dinâmicas internacionais. Essa distribuição sugere que as empresas não enxergam mais o risco geopolítico como um único choque externo, mas como um amplo conjunto de ameaças interconectadas que afetam operações, tecnologia e resiliência.

3. Da consciência situacional à decisão geoestratégica

 

Por fim, as empresas obtêm vantagem competitiva quando desenvolvem consciência situacional e integram esse entendimento aos processos decisórios da alta gestão. Conselhos e executivos devem monitorar como eventos globais em evolução afetam processos críticos da organização, pois operações, cadeias de suprimentos e acesso a mercados podem ser interrompidos por eventos geopolíticos, exigindo supervisão contínua (Deloitte, 2025). Segundo a ex-secretária de estado dos Estados Unidos Condoleezza Rice e a professora do Departamento de Ciências Políticas de Stanford Amy Zegart (2018), a consciência situacional pode ser definida como “uma compreensão dinâmica dos riscos políticos que batem à porta” (p. 205, tradução nossa), o que ilustra que a gestão de risco geopolítico não se reduz ao acúmulo de informações, mas exige interpretar, em tempo real, como riscos emergentes podem afetar os processos críticos das empresas. Nesse contexto, a análise de risco geopolítico apoiada por consciência situacional subsidia decisões sobre expansão internacional, investimentos, fusões, aquisições e entrada em novos mercados, já que riscos e oportunidades de operar em um país podem ser alterados por sanções, restrições comerciais, conflitos e instabilidade política.

 

Empresas que monitoram esses acontecimentos globais com consciência situacional conseguem adaptar suas estratégias antes que tensões geopolíticas afetem seus processos críticos. Como observam Pacek e Thorniley, “um gestor que depende exclusivamente de pesquisa de escritório é como o capitão de um navio que vê apenas o topo de um iceberg; é o grande bloco abaixo da superfície que faz ou desfaz os negócios” (citado em Rice & Zegart, 2018, p. 207, tradução nossa). Essa metáfora reforça que, no campo do risco geopolítico, as ameaças mais críticas muitas vezes permanecem ocultas — como no caso de um cisne negro — e só podem ser identificadas por meio de fontes locais, redes informais e monitoramento contínuo, e não apenas pela análise de documentos secundários. Por isso, a consciência situacional deve ser integrada ao planejamento estratégico, às discussões do conselho e à decisão executiva, permitindo uma resposta tempestiva frente à incerteza global.

Conclusão

 

Em síntese, o risco geopolítico pode ser transformado em vantagem competitiva quando as empresas antecipam ameaças antes de seus concorrentes, adaptam suas cadeias de suprimentos com maior resiliência e incorporam a consciência situacional à tomada de decisão em um cenário global incerto. Esse artigo demonstrou que a gestão proativa de riscos geopolíticos deixou de ser opcional e passou a integrar a estratégia corporativa de organizações de diferentes portes e setores, como evidenciado no gráfico 1 sobre a priorização do risco geopolítico por CFOs europeus e o gráfico 2 sobre o monitoramento desse tema pelos conselhos de administração.

 

Para mitigar riscos geopolíticos, recomenda-se: (1) institucionalizar a consciência situacional nos processos do conselho e da alta gestão, permitindo que tensões geopolíticas sejam monitoradas de forma contínua; (2) diversificar fornecedores, rotas logísticas e mercados, reduzindo dependências críticas e vulnerabilidades operacionais; e (3) realizar simulações de cenários geopolíticos e planos de contingência, preparando a organização para responder de forma tempestiva a crises emergentes. Essas medidas permitem resposta geoestratégica à incerteza global e fortalecimento da vantagem competitiva no longo prazo.

Referências


      Deloitte. (2025). CFOs in Europe ranked geopolitical risk highly. https://www.deloitte.com/us/en/insights/topics/business-strategy-growth/geopolitical-risk-cfos-europe.html

 

Deloitte. (2025). Board oversight of geopolitical risk. https://www.deloitte.com/us/en/programs/center-for-board-effectiveness/articles/board-oversight-of-geopolitical-risk.html

 

Reuters. (2026, May 22). Hengli, China's silk-to-petrochemicals empire, faces the chill of US sanctions. https://www.reuters.com/business/energy/hengli-chinas-silk-to-petrochemicals-empire-faces-chill-us-sanctions-2026-05-22/

 

Rice, C., & Zegart, A. B. (2018). Political risk: How businesses and organizations can anticipate global insecurity. Twelve.

 

Thomson Reuters. (2026, February 12). The 2026 supply chain challenge: Global trade disruptions. https://tax.thomsonreuters.com/blog/2026s-supply-chain-challenge-confronting-complexity-and-disruption-in-global-trade-tri/

 

World Economic Forum. (2026). Global risks report 2026. https://www.weforum.org/publications/global-risks-report-2026/

bottom of page