top of page
-Governança, Gestão e Eficiência no Sistema de Segurança Pública_edited.jpg

Governança, Gestão e Eficiência no Sistema de Segurança Pública: uma análise do modelo Input – Transformação – Output

Armando Nascimento
Doutorando em Design Organizacional, Mestre em Planejamento e Gestão Pública, Especialista em Estratégia e Sistema de Segurança Pública. Pesquisador LABGRC-CCSA/UFPE, NICC/UFPE e LACAI-CAC/UFPE. Professor do Master Business Security - GRC e de Administração Pública. Membro dos Comitês ABNT: Governança Pública; Governança de Organizações; Cidades e Comunidades Sustentáveis; Industria 4.0: Gestão de Projetos; Programa e Portfólio e Gestão Risco.

Setembro | 2025

Introdução

 

A segurança pública, no contexto brasileiro, representa um dos maiores desafios contemporâneos para estados e municípios. A crescente complexidade das dinâmicas sociais, econômicas e tecnológicas exige dos gestores e formuladores de políticas públicas uma visão sistêmica e integrada. Nesse cenário, torna-se essencial compreender o funcionamento do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP), instituído pela Lei nº 13.675/2018, que organiza e disciplina os órgãos responsáveis pela segurança pública e estabelece a Política Nacional de Segurança Pública e Defesa Social (PNSPDS).

 

Um dos elementos centrais para que o SUSP e seus planos locais de segurança alcancem eficiência e legitimidade está na adoção do modelo Input – Transformação – Output, típico da análise de sistemas. Este modelo, quando aplicado à segurança pública, permite identificar claramente os recursos de entrada (inputs), o processo de transformação e os resultados (outputs). Dessa forma, estados e municípios conseguem não apenas planejar melhor suas ações, mas também medir, avaliar e ajustar suas políticas de modo contínuo.

 

Este artigo discute a aplicação do modelo sistêmico no campo da segurança pública, destacando a importância da governança e da gestão como funções complementares e essenciais. A partir desse enquadramento, será possível compreender como as operações de segurança podem gerar resultados concretos no enfrentamento à violência e à criminalidade, preservando a coesão institucional, a transparência e a legitimidade democrática.

O Modelo Input – Transformação – Output aplicado à Segurança Pública

 

O modelo Input – Transformação – Output é um arcabouço conceitual que auxilia na compreensão de sistemas organizacionais. Em linhas gerais, significa que:

 

  • Inputs (entradas): são os recursos de entrada, divididos em recursos transformados (sobre os quais incidem as ações de transformação, como demandas sociais, indicadores de criminalidade, registros de ocorrência, territórios vulneráveis, populações em risco) e recursos de transformação (meios que operam sobre os transformados, como policiais, guardas municipais, tecnologia, inteligência, legislação, recursos financeiros e estrutura normativa).

  • Transformação: corresponde ao conjunto de processos, métodos e operações que convertem os inputs em outputs, ou seja, que transformam condições de insegurança em condições de maior ordem e proteção. A transformação pode ocorrer por meio de políticas preventivas, operações de policiamento, uso de tecnologias de monitoramento, programas sociais de redução da vulnerabilidade, processos de investigação criminal, entre outros.

  • Outputs (saídas): são os resultados obtidos a partir da transformação. O Output é o resultado visível e mensurável do processo. No sistema de segurança pública, os outputs representam tanto os serviços prestados quanto os impactos alcançados. Eles não se limitam à quantidade de prisões ou operações realizadas, mas também à qualidade e ao efeito social gerado.

    • Outputs imediatos: patrulhamento ostensivo, tempo de resposta a chamados, número de ocorrências registradas, inquéritos concluídos, programas de prevenção implementados. Esses são os produtos diretos da atividade policial e dos demais órgãos do SUSP.

    • Outcomes (resultados): redução dos índices de criminalidade, aumento da sensação de segurança da população, diminuição da letalidade policial, melhoria da confiança social nas instituições de segurança. Esses resultados de longo prazo são os que justificam a existência de todo o sistema e dão sentido às políticas implementadas.

 

No campo da segurança pública, a aplicação desse modelo é vital porque a atividade não se limita à repressão criminal. Ao contrário, envolve planejamento estratégico, prevenção social, análise de risco, inteligência, políticas de governança e gestão eficiente de recursos.

 

Assim, um plano municipal ou estadual de segurança pública que não se organize dentro dessa lógica sistêmica tende a apresentar falhas: desperdício de recursos, baixa efetividade das operações e dificuldade em prestar contas à sociedade.

 

A Função da Governança no Plano de Segurança Pública

 

A governança corresponde ao nível estratégico da segurança pública. Ela é responsável por dar direção, estabelecer prioridades, criar mecanismos de controle e garantir que as ações estejam alinhadas ao interesse público. No contexto do SUSP, a governança assume funções fundamentais:

 

  1. Direção estratégica: definir os objetivos de longo prazo da política de segurança e assegurar que estejam alinhados à PNSPDS.

  2. Integração federativa: promover a articulação entre União, estados e municípios, criando condições para cooperação, interoperabilidade e coordenação de esforços.

  3. Participação social: assegurar que conselhos comunitários, organizações da sociedade civil e cidadãos tenham espaço ativo nos processos de deliberação e avaliação.

  4. Transparência e legitimidade: instituir indicadores, relatórios e canais de comunicação que possibilitem acompanhamento pela sociedade.

  5. Harmonia entre interesses múltiplos: criar instâncias colegiadas que permitam a tomada de decisões de forma democrática, equilibrando pressões políticas, demandas sociais e limites técnicos.

 

A governança, portanto, é o "o quê" e o "porquê" da política de segurança: define quais são os objetivos e por que eles são relevantes.

 

A Função da Gestão no Plano de Segurança Pública

 

Se a governança atua no nível estratégico, a gestão corresponde ao nível tático e operacional, traduzindo as diretrizes em práticas concretas. Entre suas principais funções estão:

 

  1. Execução das políticas e programas: operacionalizar as ações desenhadas na governança, transformando planos em atividades.

  2. Gestão de recursos: alocar de maneira racional e técnica os recursos humanos, financeiros, tecnológicos e materiais.

  3. Eficiência administrativa: padronizar rotinas, metodologias e protocolos, assegurando continuidade e previsibilidade na execução.

  4. Planejamento estadual e municipal: apoiar os entes locais na elaboração de planos integrados e alinhados ao plano nacional.

  5. Monitoramento e ajuste: acompanhar indicadores e metas, corrigindo falhas e promovendo inovação constante.

 

A gestão é, portanto, o "como" e o "com que recursos" a política será implementada.

 

A Interdependência entre Governança e Gestão

 

A distinção entre governança e gestão não deve ser vista como separação, mas como complementaridade. Ambas atuam em níveis distintos do processo, porém de forma interligada.

 

  • A governança sem gestão se torna retórica: cria diretrizes e objetivos, mas não consegue realizar mudanças concretas.

  • A gestão sem governança se torna desordenada: executa ações sem norte estratégico, gerando desperdício de recursos e falta de legitimidade.

 

O SUSP, ao institucionalizar uma estrutura federativa e interinstitucional, reflete exatamente essa lógica: a governança garante alinhamento e coesão, enquanto a gestão assegura resultados práticos e mensuráveis.

 

O Papel dos Estados e Municípios no Modelo Sistêmico

 

A Lei nº 13.675/2018 reconhece que os estados e municípios desempenham papel essencial na segurança pública. Isso significa que precisam estar preparados para adotar o modelo sistêmico, compreendendo que toda ação planejada e executada é parte de um fluxo de input – transformação – output.

 

  • Nos estados, o desafio é promover a integração entre polícias, corpo de bombeiros, perícias, sistema penitenciário e órgãos de inteligência, além de articular políticas regionais de prevenção.

  • Nos municípios, cabe estruturar planos municipais de segurança, fortalecer as guardas civis, criar centros de monitoramento, desenvolver políticas sociais preventivas e articular-se com os demais entes.

 

Assim, cada ente federativo deve identificar claramente seus inputs, planejar suas transformações e medir seus outputs, contribuindo para a coesão do SUSP como um todo.

Governança, Gestão e a Cultura da Avaliação

 

Um dos maiores avanços do modelo sistêmico é que ele exige avaliação contínua. Ou seja, estados e municípios devem desenvolver indicadores claros e mensuráveis para verificar se os outputs correspondem de fato à transformação desejada.

 

Alguns exemplos de indicadores:

 

  • Taxa de homicídios por 100 mil habitantes.

  • Tempo médio de resposta a ocorrências.

  • Percepção de segurança da população (sensação de segurança).

  • Grau de integração entre órgãos do SUSP (medido por projetos conjuntos e interoperabilidade tecnológica).

  • Eficiência no uso dos recursos orçamentários.

 

Essa cultura de avaliação fortalece tanto a governança (ao fornecer insumos para decisões estratégicas) quanto a gestão (ao permitir ajustes táticos e operacionais).

Considerações Finais

 

A aplicação do modelo Input – Transformação – Output ao Sistema Único de Segurança Pública representa um marco conceitual e prático. Ele possibilita enxergar a segurança pública não apenas como um conjunto de ações isoladas, mas como um sistema integrado que transforma recursos e demandas sociais em resultados mensuráveis.

 

A distinção e complementaridade entre governança e gestão são fundamentais para que planos estaduais e municipais de segurança alcancem eficiência e legitimidade. Enquanto a governança assegura direção estratégica, integração federativa, participação social e transparência, a gestão garante execução prática, racionalidade administrativa e eficiência no uso de recursos.

 

Portanto, para que estados e municípios avancem na redução da violência e no fortalecimento da confiança social, é imprescindível compreender que todas as operações de segurança pública devem ser orientadas por esse modelo sistêmico. A governança dá rumo; a gestão entrega resultados. Juntas, promovem a transformação necessária para que a segurança pública brasileira deixe de ser apenas um desafio e se torne uma política efetiva, legítima e sustentável.

voltar

bottom of page