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Impactos da Tarifa de 50% dos EUA sobre o Brasil: Riscos, Causas e Consequências

Izan Araujo 

Head de Risco Geopolítico, Brasiliano INTERISK

Mateus Santos

Consultor de Risco Geopolítico com foco em MENA (Oriente Médio e Norte da África), Brasiliano INTERISK.

Beatriz Ferreira

Consultora de Riscos Globais com foco em Bioeconomia, Sustentabilidade e Mudanças Climáticas, Brasiliano INTERISK.

Glauco Winkel

Consultor de Risco Geopolítico com foco em Indo-Pacífico, Brasiliano INTERISK.

 

Agosto | 2025

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1. Introdução

Como a previsão de imposição de uma tarifa de 50% por Donald Trump irá impactar o Brasil em múltiplas dimensões? A tarifa de 50% imposta pelos Estados Unidos sobre as importações brasileiras foi anunciada pelo presidente Donald Trump em 9 de julho de 2025, com a entrada em vigor prevista para 1º de agosto de 2025. A imposição da tarifa sobre exportações brasileiras reflete uma inflexão nas relações econômicas bilaterais entre Brasil e Estados Unidos. A tarifa de 50% dos EUA sobre o Brasil tem um impacto massivo porque resulta de causas multifacetadas: (1) tarifaço global, (2) cálculo político interno de Trump e (3) política econômica protecionista, com impactos diplomáticos, econômicos e geopolíticos para o Brasil.  

 

2. Causas

2.1 Tarifaço global: desafios em um cenário VUCA

O tarifaço anunciado no início do ano pelo governo dos EUA, direcionado a diversos países, incluindo o Brasil, integra uma agenda protecionista que busca revitalizar a indústria doméstica americana por meio da elevação de tarifas, com o objetivo de impactar estruturalmente a geografia das cadeias globais de valor. A tarifa de 50% imposta pelos Estados Unidos sobre as importações brasileiras, anunciada pelo então presidente Donald Trump, pegou o Brasil de surpresa, expondo fragilidades na capacidade de construir cenários prospectivos disruptivos — os chamados cisnes negros — e evidenciando vulnerabilidades na gestão de riscos geopolíticos. Tais lacunas refletem, talvez, a ausência de uma Estratégia de Segurança Nacional nos moldes da National Security Strategy (NSS) norte-americana. Nessa nova conjuntura internacional, marcada por volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade (VUCA), desenvolver um processo estruturado de gestão de risco tornou-se condição sine qua non para que os policymakers possam se antecipar, mitigar os impactos de riscos geopolíticos e assegurar a defesa dos interesses nacionais.

2.2 Apoio político interno e aceno de caráter ideológico

Além do aspecto econômico, a decisão de Trump é vista também a partir de uma dimensão política. Em nível doméstico, tanto setores aliados ao ex-presidente Jair Bolsonaro quanto segmentos ligados ao atual governo brasileiro discutem, por meio de diferentes ângulos, até que ponto tal posicionamento reflete um aceno de caráter ideológico. Assim, em maior ou menor medida, o tarifaço também se articula como um fator de impacto nas dinâmicas internas do ambiente político nacional, ao ser apresentado como um instrumento de pressão, com potencial para influenciar percepções e narrativas relacionadas ao julgamento do ex-presidente pelo Poder Judiciário. No meio político brasileiro, essa movimentação foi vista como uma possível interferência externa indireta no funcionamento das instituições domésticas. Dessa forma, a tarifa assumiu um papel híbrido: exógeno no plano econômico e endógeno no plano político.

2.3 Protecionismo econômico sob a agenda MAGA

A terceira causa relevante da tarifa imposta ao Brasil se insere na lógica do protecionismo econômico impulsionado pela doutrina “America First” e pela agenda MAGA. Essa política comercial é orientada por interesses domésticos imediatos, focada na reindustrialização dos EUA e na preservação de empregos americanos. A decisão de impor uma tarifa de 50% ao Brasil não foi fundamentada em déficit comercial, visto que os EUA mantiveram um superávit de aproximadamente US$ 300 milhões em bens na balança comercial bilateral em 2024 (MDIC, 2024). Os superávits americanos em relação ao Brasil têm sido recorrentes, considerando uma faixa histórica de 15 anos (2009 - 2024).

 

3. Consequências para o Brasil

3.1 Fragilização da diplomacia bilateral

A imposição da tarifa pelos EUA resultou em um vácuo de interlocução entre o governo brasileiro e Washington, dificultando o diálogo tradicional. Em resposta, em julho de 2025, uma comitiva conjunta composta pelas comissões de Relações Exteriores do Senado e da Câmara dos Deputados foi enviada aos EUA com o objetivo de restabelecer canais de comunicação e buscar uma renegociação mais favorável da tarifa. Essa iniciativa parlamentar reforçou a urgência de retomar o diálogo diplomático e encontrar soluções que protejam os interesses econômicos do Brasil. Cumpre destacar que, segundo informações do Ministério da Fazenda, Brasil e EUA já se encontravam em negociações visando à constituição de um novo dispositivo bilateral. A imposição dos 50% poderá provocar uma alteração nesse quadro de conversações.

3.2 Impacto econômico e risco para setores estratégicos

O tarifaço imposto pelos Estados Unidos atinge em cheio setores estratégicos da economia brasileira, com efeitos diretos sobre as exportações de alumínio, aço, petróleo, aeronaves e commodities agrícolas. O caso do alumínio é emblemático: já submetido a uma tarifa de 50% desde medidas anteriores, o setor agora enfrenta o risco concreto de elevação para até 100%, o que inviabilizaria a participação do produto brasileiro no mercado americano. Essa pressão tarifária gera efeitos em cadeia sobre investimentos, empregos e arrecadação.

3.3 Impacto comercial e reposicionamento geopolítico

Além das perdas comerciais mencionadas, o tarifaço imposto pelos EUA provoca impactos geopolíticos relevantes, resultando em reorientações nas alianças comerciais do Brasil e incentivando sua aproximação a mercados alternativos na América do Norte, como México e Canadá, e na região do Indo-Pacífico, incluindo Índia, Austrália, Japão, Coreia do Sul, Nova Zelândia, China, além dos países da ASEAN e também do Oriente Médio. Ainda nessa direção, o Brasil tem reforçado seu engajamento em acordos multilaterais, como o tratado Mercosul–União Europeia, retomando sua posição como ator estratégico e fator de barganha nas negociações com Washington. Nesse cenário, a diplomacia brasileira deveria intensificar os esforços de integração latino-americana e buscar parcerias mais consistentes com o Sul Global. Tais iniciativas visam mitigar os impactos do protecionismo crescente no cenário internacional.

 

4. Conclusão

A tarifa de 50% imposta pelos EUA ao Brasil marcou uma inflexão nas relações bilaterais, causada pelo reposicionamento geoestratégico americano, apoio político interno e protecionismo econômico. Isso resultou na fragilização da diplomacia, impacto negativo em setores estratégicos e reorientação das parcerias comerciais brasileiras. Em resposta, o Brasil busca retomar o diálogo diplomático e diversificar suas relações comerciais na região do Indo-Pacífico, América do Norte e o Sul Global. Recomenda-se fortalecer a análise prospectiva e ampliar a integração regional latino-americana para aumentar a resiliência nacional, garantindo maior autonomia e estabilidade econômica diante da crescente volatilidade global.

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