
A Interconectividade de Riscos como Requisito Essencial para a Resiliência dos Negócios
Enoque Xavier, MBA, MBS
Especializado em Gestão de Riscos – Master Business in Administration – MBA pela FGV – Fundação Getúlio Vargas.
Gerente em Gestão de Riscos da Brasiliano INTERISK
Maio | 2026
No cenário atual, compreender a interconectividade dos riscos deixou de ser diferencial e tornou-se essencial para a sustentabilidade dos negócios.
A interconectividade entre riscos refere-se à forma como diferentes riscos estão relacionados e podem se influenciar mutuamente, gerando efeitos em cadeia dentro de uma organização, setor ou até em nível global. Em outras palavras, um risco raramente ocorre de forma isolada: a ocorrência de um pode aumentar a probabilidade ou a gravidade de outro.
Principais pontos sobre interconectividade entre riscos:
1. Efeito dominó (cascata)
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Um risco inicial desencadeia outros riscos subsequentes.
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Exemplo: uma seca severa → quebra de safra → inadimplência em crédito rural → perda financeira para cooperativas → risco de liquidez no sistema financeiro.
2. Amplificação mútua
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Dois riscos interagem de forma a aumentar sua intensidade.
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Exemplo: risco cibernético + risco de imagem: um ataque de hackers não só afeta a operação, mas também a reputação da empresa, multiplicando impactos.
3. Riscos correlacionados
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Compartilham uma mesma causa raiz ou um fator externo.
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Exemplo: inflação alta e aumento da inadimplência estão ligados a um mesmo contexto econômico.
4. Complexidade na gestão
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A interconectividade torna difícil priorizar ou tratar riscos de forma isolada, exigindo uma visão sistêmica e abordagens integradas como:
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Mapeamento de interdependências (diagramas de causa e efeito, redes de risco).
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Análise de cenários para prever efeitos em cascata.
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Gestão integrada de riscos (ERM) para avaliar riscos não só individualmente, mas também em conjunto.
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Hoje, a interconectividade entre riscos deixou de ser um conceito teórico e passou a ser um fator crítico para a sobrevivência e competitividade das organizações. Isso acontece porque o ambiente atual é mais complexo, dinâmico e interdependente do que nunca.
O Global Risk Report há anos salienta a importância de elaborar o estudo das conexões entre os riscos e o faz nos Relatórios Globais de Risco. Desde 2009, sugere que não só façamos o estudo da Criticidade do Risco (probabilidade vs impacto) mas que também se faça a análise da motricidade dos riscos.
Por que isso é tão importante atualmente?
1. Globalização e efeito cascata mais rápido
Eventos locais podem gerar impactos globais em questão de horas ou dias.
Exemplo: uma crise logística em um país pode afetar cadeias de suprimento no mundo inteiro, gerando riscos operacionais, financeiros e até reputacionais.
2. Aumento da complexidade regulatória
Ambientes regulatórios estão mais rigorosos e interligados.
Um problema de compliance pode rapidamente evoluir para:
→ risco legal → risco financeiro (multas) → risco reputacional.
3. Transformação digital e riscos cibernéticos
A digitalização conecta sistemas, dados e processos — mas também conecta vulnerabilidades.
Um ataque cibernético hoje pode gerar simultaneamente:
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interrupção operacional
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vazamento de dados
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sanções regulatórias
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perda de confiança do cliente
4. Crises multifatoriais (não isoladas)
As crises atuais raramente têm uma única causa.
Exemplo: mudanças climáticas + instabilidade econômica + conflitos geopolíticos → afetam mercado, crédito e liquidez ao mesmo tempo.
5. Tomada de decisão mais estratégica
Entender a interconectividade permite:
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priorizar riscos mais críticos (os que “contaminam” outros)
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agir preventivamente, não só reativamente
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alocar melhor recursos de mitigação
6. Visão sistêmica (fim dos “silos”)
Empresas que tratam riscos de forma isolada tendem a falhar.
Hoje, é essencial integrar áreas como:
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compliance
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financeiro
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operacional
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tecnologia
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jurídico
Em resumo
A interconectividade entre riscos é importante porque:
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um risco raramente vem sozinho
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os impactos são amplificados pelas conexões
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a gestão eficaz depende de entender essas relações
Cruzando a interconectividade com a criticidade dos riscos (Priorização dos Riscos)
Aqui entramos em um nível mais estratégico: cruzar interconectividade com criticidade permite identificar não apenas riscos importantes, mas os que propagam impacto sistêmico.
Interpretação prática
Um Risco que tenha Alta criticidade + Alta interconectividade
(Riscos Sistêmicos – TOP PRIORIDADE)
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Ex: crédito, regulatório, cibernético
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Podem gerar efeito dominó
Devem ter:
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monitoramento contínuo
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planos robustos de mitigação
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atenção da alta gestão
Risco de Alta criticidade + Baixa interconectividade
(Riscos relevantes, mas contidos)
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Impactam fortemente, mas não se espalham tanto
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Requerem gestão focada e específica
Risco de Baixa criticidade + Alta interconectividade
(Riscos catalisadores – perigosos e subestimados)
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Pequenos gatilhos que geram grandes crises
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Ex: falha operacional simples que vira crise reputacional
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Devem ser monitorados com atenção estratégica
Risco de Baixa criticidade + Baixa interconectividade
(Riscos operacionais de rotina)
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Baixo impacto sistêmico
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Tratamento padrão
Insight importante que tiramos dessa análise:
Os riscos mais perigosos nem sempre são os mais críticos, e sim os mais conectados.
Isso muda completamente a priorização:
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Antes: foco só em impacto e probabilidade
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Agora: foco em efeito cascata
Como aplicar na prática
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Liste os riscos da organização
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Avalie criticidade (impacto × probabilidade)
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Mapeie conexões (quantos riscos cada um influencia)
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Crie um score de interconectividade (ex: número de conexões)
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Posicione na matriz
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Priorize os riscos sistêmicos
TODA ESSA APLICAÇÃO PRÁTICA PODE SER REALIZADA NO SOFTWARE INTERISK!
Nós, da Brasiliano INTERISK, trabalhamos com a Interconectividade entre Riscos já há alguns anos, visando entender esta dinâmica. Utilizamos para isso a Metodologia trazida da construção de cenários prospectivos, a Matriz de Impactos Cruzados – MIC, adaptada da metodologia do Cenarista francês Michel Godet, que tem como base o Teorema de Bayes, Probabilidades Condicionantes.
De forma geral, a técnica de impactos cruzados identifica os riscos considerados motrizes e de ligação, ou seja, aqueles que exercem maior influência sobre os demais.
No terceiro quadrante da matriz, localizam-se os riscos dependentes, aqueles que dependem dos motrizes e dos de ligação para que venham a se concretizar, e aponta no quarto quadrante quais são os riscos considerados independentes, aqueles que não possuem canal de comunicação com os demais riscos (não quer dizer que não sejam críticos ou importantes no contexto). Ressaltamos que a MIC identifica a motricidade dos riscos e não sua criticidade.
Com o objetivo de priorizar os riscos, de modo a tratar os riscos que são relevantes para a empresa, nós da Brasiliano INTERISK, empregando uma metodologia inédita, cruzamos a Matriz de Riscos, que nos fornece a criticidade de cada um dos riscos plotados na matriz, com a Matriz de Impactos Cruzados, que nos fornece a motricidade e a dinâmica entre os riscos. O resultado deste cruzamento é a Matriz de Priorização de Riscos.
A configuração da Matriz de Priorização é um conceito próprio da Brasiliano INTERISK, podendo ser modificada de acordo com os critérios das empresas.
Exemplo prático da Interconectividade dos Riscos no software INTERISK:
A Matriz de Impactos Cruzados (MIC) permite identificar a motricidade, ou seja, o nível de influência de um risco sobre o outro. Na MIC a seguir, temos 4 riscos motrizes e 2 riscos de ligação considerados como influenciadores, 2 riscos como dependentes e 1 risco independente.

A Matriz de Riscos (figura abaixo) identifica a criticidade de cada risco. Observe que na figura, a seguir, o Risco R.6 se encontra no quadrante amarelo, com impacto moderado e probabilidade média, considerado gerenciável, não havendo previsão de tratamento para ele. Mas se observarmos a MIC (figura acima) vamos identificar que o risco R.6 é motriz, portanto um risco influenciador.

A seguir, temos a Matriz de Priorização. Nela foram colocados da direita para a esquerda os quadrantes da Matriz de Riscos e de cima para baixo os quadrantes da Matriz de Impactos Cruzados. Optamos por colocar todos os riscos motrizes nos quadrantes vermelho e bordô, tendo em vista que eles são os maiores influenciadores. Ou seja, não adianta tratar um risco crítico que é dependente, pois a fonte de risco, seu influenciador, continuará agindo sobre ele de forma que não iríamos tratar da causa e sim da consequência. Da mesma forma, os riscos de ligação, posicionados nos quadrantes vermelho e laranja, também devem receber prioridade no tratamento.

Com a Matriz de Priorização, o gestor consegue visualizar os riscos que são realmente relevantes para a organização, pois seleciona, de forma cruzada, os críticos (Probabilidade x Impacto) e os sistêmicos (Motrizes x Dependentes).
Esta ferramenta é inédita em processos de gestão de riscos, pois faz com que os gestores entendam, sob uma ótica de criticidade e sistêmica, os riscos realmente importantes para a sua empresa. Isto faz com que a organização tenha maior assertividade nas suas tomadas de decisões.
Além de conhecer os riscos a serem priorizados é extremamente importante “monitorá-los” e uma das formas de o fazer é estabelecendo KRI’s para eles! No INTERISK é possível ter toda essa visão interligada.
É de suma importância estabelecer os KRI’s para riscos e assim poder ir realizando medições de acompanhamento/evolução. Isso porque a evolução (condição ruim, média ou boa, por exemplo) do indicador monitorado influencia na exposição em que o risco se encontra e deve ser um farol de antecipação na gestão de riscos.


