
Os atores como fontes de riscos corporativos: uma perspectiva conceitual
Décio Luís Schons, CIEAI, CEGRC, CIGR, CISI
General-de-Exército da Reserva. Vice-Presidente de Operações de Consultoria da empresa Brasiliano INTERISK
Outubro | 2026
1. Introdução
O ambiente de negócios contemporâneo caracteriza-se pela elevada incerteza, pela interdependência entre organizações e instituições e pela crescente complexidade das interações econômicas, tecnológicas, políticas e sociais. Para compreender os riscos corporativos, é necessário considerar não apenas os eventos que podem afetar os objetivos organizacionais, mas também os fatores e agentes que contribuem para a formação, evolução e materialização desses eventos.
O presente texto destina-se a responder à seguinte questão: como os atores, por meio de suas decisões e interações, podem constituir fontes de riscos e desse modo potencializar a complexidade da gestão de riscos corporativos?
A reflexão insere-se no contexto do Sistema de Gestão da Complexidade em Riscos (SGCR), desenvolvido pela equipe da Brasiliano INTERISK, cuja abordagem toma em consideração as interconexões entre os riscos e as influências que eles podem exercer uns sobre os outros.
Neste artigo, examinaremos a dimensão conceitual dos atores como fontes de riscos, destacando sua influência sobre os objetivos organizacionais e sobre os ambientes em que as organizações atuam.
2. Os atores no ambiente de negócios
O ambiente de negócios reúne uma diversidade de atores que, em diferentes graus, influenciam as condições de funcionamento e os resultados das organizações. Governos, órgãos reguladores, empresas, investidores, fornecedores, consumidores, comunidades, forças armadas, forças policiais, organizações criminosas e organismos internacionais são exemplos de agentes que podem interferir, direta ou indiretamente, nesse ambiente.
Os objetivos, interesses, recursos, responsabilidades e capacidades de influência desses atores são quase sempre distintos e muitas vezes conflitantes. Suas decisões podem decorrer de estratégias deliberadas, de percepções particulares da realidade, de limitações informacionais ou de circunstâncias que restringem sua liberdade de ação.
Vale aqui salientar que os atores não atuam de forma isolada, mas estabelecem entre si relações de cooperação, competição, dependência e conflito. Essas relações são condicionadas pelos interesses envolvidos e pelas diferentes capacidades de influência dos agentes.
3. Os atores como fontes de riscos
O risco, conforme a ISO 31000, é o efeito da incerteza sobre os objetivos, podendo envolver desvios positivos ou negativos em relação ao esperado. Um dirigente que privilegia resultados de curto prazo pode comprometer a sustentabilidade de uma estratégia empresarial. Em contrapartida, um investidor que estimula práticas responsáveis de governança pode contribuir para reduzir vulnerabilidades e ampliar oportunidades. Em ambos os casos, a atuação do agente influencia os resultados, embora em direções distintas.
Para compreender o papel dos atores na dinâmica dos riscos corporativos, é necessário que se faça a distinção clara entre três fatores determinantes: a fonte de risco; o evento desencadeador da materialização do risco; e o risco em si. O ator constitui uma fonte de risco na medida em que suas características, decisões, ações, omissões ou interações criem condições capazes de afetar os objetivos organizacionais. O gatilho, ou evento desencadeador, é muitas vezes difícil de identificar. Ressalte-se, todavia, que não existe necessariamente uma relação causal simples ou linear entre a fonte, o evento desencadeador e o impacto do risco materializado.
Sob o ponto de vista da gestão de riscos, a divergência entre os objetivos dos atores pode constituir um fator relevante de exposição. Quando essas divergências não são adequadamente compreendidas e administradas, podem surgir conflitos, decisões contraditórias, resistência a mudanças e comportamentos suscetíveis de ampliar a exposição.
As assimetrias de informação e as diferentes perspectivas dos atores também podem influenciar a vulnerabilidade da organização. Os agentes não dispõem necessariamente das mesmas informações, e suas decisões podem ser condicionadas por conhecimentos incompletos, vieses cognitivos, excesso de confiança ou avaliações equivocadas das consequências de suas ações.
Em conjunto, as divergências de interesses, as assimetrias de informação e as relações de poder contribuem para gerar, ampliar, transformar ou mitigar riscos. Esses efeitos não pressupõem, necessariamente, uma intenção deliberada de produzi-los: decisões tomadas de boa-fé, mas baseadas em informações insuficientes ou em pressupostos equivocados, também podem gerar consequências não intencionais, favoráveis ou desfavoráveis.
4. Interdependência dos atores — seus efeitos sobre a complexidade dos riscos
Em ambientes interdependentes, os efeitos das decisões de um agente podem ultrapassar os limites de sua própria atuação e repercutir em diferentes áreas da organização ou em outras organizações de sua cadeia de relacionamentos, afetando os processos e objetivos, além de afetar a exposição a riscos.
A complexidade se manifesta quando as relações entre atores alteram as condições que orientam suas próprias decisões. Uma mudança na conduta de um fornecedor pode provocar reações de clientes e concorrentes; essas reações, por sua vez, podem modificar as decisões dos investidores, as prioridades operacionais e as estratégias de outros participantes. Formam-se, assim, relações de influência recíproca cujos resultados nem sempre podem ser antecipados pela análise isolada de cada um dos agentes.
Nessas circunstâncias, a origem de um risco pode residir menos em uma decisão individual do que na combinação de decisões, interesses e comportamentos interdependentes. Essa dinâmica é suscetível de gerar riscos emergentes, cuja identificação exige considerar as interações entre os atores, e não apenas as características ou decisões de cada um deles isoladamente.
A análise da interdependência visa aperfeiçoar o entendimento do processo, tendo sempre em conta que determinados riscos só podem ser compreendidos adequadamente quando se consideram as relações entre os atores que contribuem para sua formação e evolução.
5. Considerações finais
A análise conceitual desenvolvida neste artigo evidencia que os atores constituem uma dimensão relevante da gestão de riscos corporativos. Suas decisões, interesses, percepções e interações, aliadas à capacidade de influência de cada um, podem contribuir tanto para a geração de ameaças quanto para a criação de oportunidades e a mitigação de vulnerabilidades.
Em ambientes complexos, essa influência não se limita aos efeitos isolados da atuação de cada agente. As relações de dependência, cooperação, competição e conflito geram consequências que se propagam entre atores e atividades, alterando as condições em que os riscos se desenvolvem e afetam os objetivos organizacionais, produzindo resultados de difícil antecipação.
A compreensão dos riscos corporativos exige, portanto, reconhecer que os atores não são apenas participantes dos processos de gestão de riscos: frequentemente, eles constituem as fontes desses riscos e influenciam sua dinâmica. Essa perspectiva oferece uma base conceitual para aprofundar a discussão sobre a complexidade dos riscos e fundamenta a investigação, em trabalhos posteriores, de como identificar e analisar sistematicamente os atores e suas inter-relações no contexto do SGCR.
