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Perspectivas relacionadas a uma nova visão dos Riscos ESG

Décio Luís Schons,  CIEAI, CEGRC, CIGR, CISI
General-de-Exército da Reserva. Vice-Presidente de Operações de Consultoria da empresa Brasiliano INTERISK

Abril | 2026                                                                                                                                                

 

A partir dos altos e baixos que a chamada Agenda ESG vem experimentando desde o momento de sua concepção, uma questão que se coloca hoje para os gestores é sobre o que fazer para que os riscos ESG deixem de ser apenas mais um tópico da agenda institucional e passem a ser tratados como riscos corporativos em sua plenitude.

 

Em primeiro lugar, os riscos ESG devem deixar de constar simplesmente como um mero apêndice do programa de marketing corporativo. Para tanto, é necessário integrá-los, em sua plenitude, à Matriz de Riscos e, em consequência, à estrutura de Gestão de Riscos Corporativos da empresa. Dessa forma, ficará evidente que sua materialização acarretará impactos financeiros diretos, tais como a redução do fluxo de caixa, o aumento de custo de capital, multas regulatórias etc.

 

Para que tal aconteça, é necessário que as empresas passem por uma mudança de paradigma no momento de analisar esses riscos. Não se trata apenas de atentar para o louvável princípio da sustentabilidade, mas de investigar, sem maiores rodeios, quais são os temas ESG que podem afetar, de forma direta, o fluxo de caixa da organização, ou seja, determinar quais os riscos dessa categoria são dotados de materialidade financeira.

 

Um aspecto que não pode ser negligenciado é a atribuição de responsabilidades pela gestão dos riscos ESG. Qualquer risco corporativo precisa ter um dono e os riscos ESG não podem receber um tratamento diferente. Além de o tema ESG integrar obrigatoriamente a pauta de todas as atividades do Comitê de Auditoria e Riscos, a remuneração dos integrantes da alta administração (CEO, CAO, Diretores) precisa ser atrelada ao atingimento, pela organização, de metas ESG bem definidas, tais como: redução do número de acidentes de trabalho, evolução nos processos de tratamento de resíduos, diversidade na ocupação dos cargos de liderança empresarial e assim por diante.

 

No sistema costumeiro de negócios, pouca atenção vinha sendo dispensada ao que acontecia no âmbito da cadeia de suprimentos.  As novas práticas de gestão de riscos ESG determinam que as operações que envolvem fornecedores e parceiros externos recebam, obrigatoriamente, tratamento tão rigoroso quanto os processos internos. Fornecedores que adotem, por exemplo, práticas como o greenwashing, a utilização de trabalho análogo à escravidão ou a emissão descontrolada de gases de efeito estufa no transporte não serão admitidos em hipótese nenhuma, sob pena de submeter a organização a riscos severos de interrupção operacional e dano reputacional.

 

Cabe aqui uma menção, ainda que ligeira, a uma nova forma de encarar a temática ESG. A chamada ESG 2.0 vem se consolidando nos últimos dois anos como uma versão mais realista da Agenda ESG original. As letras ESG, neste caso, responderiam por Estratégia (Economia), Segurança e Geopolítica.

 

Em síntese, os pilares propostos incorporam as seguintes modificações:

 

1. Pilar Estratégico / Econômico: parte-se do pressuposto de que a Ética é fundamental, mas para que a empresa possa adotar condutas éticas, ela precisa existir – daí a mudança do foco, da prática da virtude por si mesma para uma visão mais utilitarista, uma espécie de arquitetura de resiliência, em que a sustentabilidade entra como imperativo de competitividade e sobrevivência econômica a longo prazo.

2. Pilar Segurança: partindo do princípio de que sem segurança não há estabilidade social, procedeu-se à expansão da antiga definição do pilar Social para incluir a segurança energética, a segurança cibernética e a segurança da infraestrutura.

3. Pilar Geopolítico: a noção original de Governança Corporativa passou a abranger a análise de riscos geopolíticos, além da busca pela liberdade de ação, seja no aspecto político, seja no que diz respeito à obtenção e gestão dos recursos necessários às operações.

 

Concluindo, podemos afirmar que a Agenda ESG somente se transforma em gestão de riscos quando a organização mapeia os temas ESG como riscos e oportunidades, integra esses temas ao seu Sistema de Gestão de Riscos Corporativos, define as fontes de risco, os controles correspondentes, as possíveis consequências e passa a tratar deles com a mesma disciplina aplicada aos riscos financeiros, operacionais e regulatórios. Nesse contexto, a adoção da variante ESG 2.0 pode muito bem ser um passo significativo na direção de uma gestão mais realista, focada em resultados factíveis para as empresas e com impacto positivo na vida das comunidades em que elas estão inseridas.

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