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Por que as Empresas Brasileiras Precisam Avançar na Agenda da Sustentabilidade?

Décio Luís Schons,  CIEAI, CEGRC, CIGR, CISI
General-de-Exército da Reserva. Vice-Presidente de Operações de Consultoria da empresa Brasiliano INTERISK

Julho | 2026

No newsletter anterior, verificamos que a Agenda ESG 2.0 tem na dupla materialidade seu pilar conceitual: a compreensão de que riscos ambientais, sociais e de governança não afetam apenas a reputação da empresa, mas podem se converter, com o tempo, em passivos financeiros concretos. Essa lógica ajuda a explicar por que o tema ESG deixou de ser restrito a grandes exportadoras ou a departamentos de sustentabilidade e passou a exigir a atenção de praticamente toda empresa brasileira inserida em cadeias produtivas — seja ela exportadora direta ou não.

Quando se discute a temática ESG — sigla para Environmental, Social and Governance (Ambiental, Social e Governança) —, é comum surgirem questionamentos sobre seu significado prático e sobre a viabilidade de sua aplicação pelas empresas. Esse ceticismo decorre principalmente da prática de greenwashing, que compromete a credibilidade de iniciativas sustentáveis; e, em segundo lugar, do negacionismo climático, que rejeita o papel das ações humanas nas mudanças climáticas, em particular no aquecimento global.

Ainda que marcado por esses desafios, o cenário atual indica que o tema ESG deixou de ser um conjunto de práticas voluntárias para se tornar um eixo estratégico essencial à competitividade empresarial. No Brasil, essa mudança ganha relevância diante de novas regulações internacionais, da crescente pressão social e da necessidade de inserção de nossas empresas em cadeias globais de valor. Assim sendo, torna-se fundamental discutir o avanço das empresas brasileiras rumo à Agenda ESG 2.0 — uma abordagem mais madura, integrada e orientada em direção a resultados mensuráveis.

Em primeiro lugar, é necessário tomar em conta o crescente rigor das normas internacionais relacionadas às questões ESG. Diversos países e blocos econômicos, especialmente a União Europeia, vêm implementando regulações cada vez mais exigentes, que impactam não apenas empresas locais, mas também aquelas inseridas nas cadeias de valor de produtos importados. Mecanismos como o ajuste de carbono na fronteira e legislações de due diligence socioambiental colocam em evidência questões como as emissões de gases de efeito estufa, as condições de trabalho e a rastreabilidade das cadeias produtivas. Para empresas brasileiras que desejam exportar ou manter relações comerciais com esses mercados, adequar-se aos mencionados requisitos deixou de ser uma opção e passou a ser uma condição básica de acesso.

É importante destacar que mesmo aquelas empresas que não exportam seus produtos diretamente podem estar inseridas em cadeias de valor que atendem ao mercado externo, isto é, um fornecedor nacional pode fazer parte da cadeia de produção de um bem exportado por outra empresa. Nesse cenário, as exigências de sustentabilidade acompanham a cadeia de valor até os insumos mais elementares, alcançando os pequenos e médios negócios. Em razão disso, a adoção de práticas ESG pelas empresas brasileiras tende a se consolidar como uma estratégia de sobrevivência e de posicionamento econômico, de modo a evitar exclusões comerciais e a fortalecer a competitividade sistêmica do País.

Outro vetor relevante é a crescente conscientização da sociedade sobre a importância das dimensões ESG. No pilar ambiental (Environmental), destacam-se questões como mudanças climáticas, gestão de resíduos, uso de recursos naturais e preservação da biodiversidade — aspectos particularmente sensíveis para o Brasil, país detentor de vasta riqueza ambiental. No pilar social (Social), sobressaem questões relacionadas a direitos trabalhistas, diversidade e inclusão, saúde e segurança ocupacional e o impacto provocado pelas empresas nas comunidades em que estão inseridas. Já o pilar relacionado a governança (Governance) abrange a transparência, a ética corporativa, o combate à corrupção e a qualidade da gestão. Consumidores, investidores e colaboradores estão cada vez mais atentos a esses fatores, influenciando diretamente as decisões de compra, a alocação de capital e o engajamento profissional.

Além disso, observa-se, na mesma direção, uma crescente pressão por parte dos mercados financeiros, com investidores institucionais e fundos internacionais incorporando critérios ESG aos seus modelos de avaliação e decisão, o que repercute diretamente no custo de capital e no acesso a financiamento. Empresas que demonstram desempenho consistente nesses aspectos tendem a atrair maiores investimentos e a apresentar maior resiliência diante de riscos de longo prazo. Por outro lado, aquelas que negligenciam esses fatores podem enfrentar restrições de crédito, perda de valor de mercado e danos reputacionais significativos.

Apesar desses avanços, ainda persistem resistências à temática ESG, muitas vezes alimentadas por práticas de greenwashing e pelo negacionismo em relação a problemas como o aquecimento global e seus efeitos climáticos. O greenwashing — caracterizado quando determinadas empresas promovem uma imagem ambientalmente responsável sem a adoção de práticas concretas — compromete a credibilidade do tema e gera justificada desconfiança entre stakeholders. Já o negacionismo científico enfraquece a percepção de urgência quanto às ações necessárias. A Agenda ESG 2.0 surge, nesse ponto, como uma resposta a todos esses questionamentos, ao enfatizar a necessidade de métricas robustas, transparência e accountability. Não basta declarar compromissos: é preciso, acima de tudo, apresentar resultados verificáveis.

Outro aspecto relevante é a dimensão estratégica da gestão de riscos ESG. Eventos climáticos extremos, crises sociais e falhas de governança vêm provocando impactos cada vez mais intensos e frequentes no ambiente de negócios. Fenômenos meteorológicos como enchentes e secas, conflitos trabalhistas e escândalos corporativos podem interromper operações, gerar prejuízos e afetar a reputação das empresas. A incorporação do tema ESG à estratégia corporativa permite antecipar e mitigar esses riscos, aumentando a resiliência organizacional das empresas.

Adicionalmente, a visão ESG está diretamente ligada à inovação e à eficiência operacional. Investimentos em tecnologias limpas, economia circular e gestão eficiente de recursos têm potencial para reduzir custos em médio e longo prazos, ao mesmo tempo em que abrem novas oportunidades de mercado. No Brasil, setores como energia renovável, agronegócio sustentável e soluções baseadas na natureza apresentam um elevado potencial de crescimento, o que reforça a importância de alinhar as práticas empresariais a essa nova lógica de desenvolvimento.

Por fim, é importante destacar o papel da liderança e da cultura organizacional na implementação efetiva da Agenda ESG 2.0. Para tanto, é importante que se recorra a uma abordagem transversal, envolvendo todas as áreas da empresa e não apenas departamentos específicos. Os riscos ESG precisam ser tratados em um arcabouço que abranja as demais categorias de riscos, por um motivo simples: muitos riscos ESG são riscos de ligação, sendo influenciados e sofrendo influência de riscos de outras categorias. Isso implica mudanças em processos, indicadores de desempenho e modelos de negócio, além de demandar um compromisso genuíno da alta gestão. Sem esse alinhamento estratégico e cultural, as iniciativas tendem a ser fragmentadas e pouco eficazes.

Em síntese, as empresas brasileiras precisam dar mais atenção à Agenda ESG 2.0, não apenas por uma questão de responsabilidade socioambiental, mas por uma necessidade estratégica. A combinação de pressões regulatórias internacionais, exigências das cadeias de valor, maior conscientização social, demandas do mercado financeiro e necessidade de mitigação de riscos posiciona a temática ESG como um elemento central para a competitividade e sustentabilidade dos negócios. Superar resistências e avançar em direção a práticas concretas, transparentes e mensuráveis será decisivo para fortalecer a competitividade das empresas brasileiras e consolidar a posição do Brasil em uma economia global cada vez mais orientada por critérios de sustentabilidade.

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