ANÁLISE

Global Risk Report 2021 ressalta riscos cibernéticos e sociais como críticos para horizonte de dois anos.
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Prof. Dr. Antonio Celso Ribeiro Brasiliano,
CEGRC, CIEAC, CIEIE, CPSI, CIGR, CRMA, CES, DEA, DSE, MBS
Doutor em Ciência e Engenharia da Informação e Inteligência Estratégica pela
Université Paris – Est (Marne La Vallée, Paris, França); presidente da Brasiliano INTERISK.

18/02/2021

O custo humano e econômico imediato da Covid-19 é severo. Ele ameaça reduzir anos de progresso ao reduzir a pobreza e a desigualdade e ao enfraquecer ainda mais a coesão social e a cooperação global. As perdas de emprego, uma crescente divisão digital, as interações sociais rompidas e as mudanças abruptas nos mercados podem levar a consequências massivas e a oportunidades perdidas para grandes partes da população global. As ramificações – na forma da agitação social, fragmentação política e das tensões geopolíticas – moldarão a efetividade das respostas dos países a outras ameaças vitais da próxima década: os ciberataques, as armas de destruição em massa e, mais notavelmente, a mudança climática.

Estas são algumas conclusões que o Global Risk Report - GRR, 16ª edição, publicado em janeiro de 2021, pelo Fórum Mundial, que fez sua pesquisa anual. Este ano, o GRR inovou ao inserir horizontes temporais para os riscos identificados, que fornece com isso a oportunidade de saber o nível de rapidez que as empresas e países devem reagir, tomando medidas preventivas e mitigatórias. 

Percepções dos Riscos Globais

Entre os riscos de maior probabilidade dos próximos anos, estão o clima extremo, a falha na ação climática e o prejuízo ambiental movido pelo homem, assim como a concentração do poder digital, a desigualdade digital e a falha na cibersegurança. 

Entre os riscos de maior impacto da próxima década, as doenças infecciosas estão em primeiro lugar, seguidas pela falha na ação climática e outros riscos ambientais. Junto com eles estão as armas de destruição em massa, crises de subsistência e de dívida, além da quebra de infraestrutura na área de Tecnologia de Informação (TI).

Notamos que os riscos ligados à tecnologia estão em alta juntamente com os ambientais, sociais e econômicos. Eles reunidos fazem um ótimo caldeirão prestes a explodir, se as nações não fizeram suas lições de casa. Parece que negamos materialização desses riscos, o que é muito ruim para os países em desenvolvimento. 

Quando analisamos o tempo dentro do qual esses riscos se tornarão uma ameaça crítica ao mundo, os sinais ficam ainda mais iminentes. Aqueles mais prováveis nos próximos dois anos incluem: crises de emprego e do meio de vida, desilusão generalizada dos jovens, desigualdade digital, estagnação econômica, prejuízo ambiental provocado pelo homem, erosão da coesão social e ataques terroristas.

Quadro 1: fonte Global Risk Report, 16ª edição, 2021

Observamos acima que temos quatro riscos sociais, dois de tecnologia, um de geopolítica, um econômico e um de meio ambiente. Todos os nove possuem um impacto massivo no mundo dentro de curto prazo. Isso quer dizer que se os países não realizarem uma cooperação, teremos graves problemas a enfrentar. Cenários prospectivos devem ser elaborados para identificar seus fatores de riscos e saber quais são motrizes para poder operacionalizar medidas de prevenção e contenção. 

Os riscos econômicos caracterizam proeminentemente no prazo de três a cinco anos, incluindo as bolhas de ativos, instabilidade do preço, choques na comodidade e crises da dívida. Tudo isso seguido por riscos geopolíticos, incluindo as relações e os conflitos interestatais e a geopolitização dos recursos. 

Quadro 2: fonte Global Risk Report, 16ª edição, 2021

A preocupação a médio prazo é o contexto econômico, integrado com o tecnológico que tem como consequência os geopolíticos. Como o próprio quadro descreve, é um efeito em cadeia. 

No horizonte de cinco a dez anos, os riscos ambientais, como a perda de biodiversidade, as crises dos recursos naturais e a falha da ação climática, dominarão junto com as armas de destruição em massa, efeitos adversos da tecnologia e o colapso dos estados ou as instituições multilaterais. 

Quadro 3: fonte Global Risk Report, 16ª edição, 2021

Ameaças existenciais são aquelas denominadas de “transgeracionais” (afetando todas as gerações futuras) em escopo e “terminais” em intensidade são classificados como riscos existenciais. Embora um risco catastrófico global possa matar a grande maioria da vida na Terra, a humanidade ainda pode se recuperar potencialmente. Portanto, nossa situação pode ser considerada como grave. Temos três riscos geopolíticos, dois de meio ambiente, dois sociais e um tecnológico. Os geopolíticos no meu ponto de vista são os motrizes para influenciar os demais. 

Fragilidade econômica e divisões sociais estão configurados para aumentar 

As disparidades constituintes na saúde, educação, estabilidade financeira e tecnologia levou a crise a impactar desproporcionalmente certos grupos e países. Não apenas a Covid-19 provocou mais de 2.403.462 de óbitos até o dia 14 de fevereiro, mas os impactos econômicos e de longo prazo continuarão a ter consequências devastadoras. O choque econômico da pandemia – horas de trabalho equivalentes a 495 milhões de empregos foram perdidos apenas no segundo trimestre de 2020. Tais fatos aumentam imediatamente a desigualdade, mas também geram uma recuperação desigual. Apenas 28 economias esperam ter crescido em 2020. A pesquisa do GRR 2021, com percentual de 60% dos entrevistados identificaram as “doenças infecciosas” e as “crises de subsistência” como as principais ameaças de curto prazo ao mundo. A perda de vidas e da subsistência aumentarão o risco da “erosão da coesão social”, também uma ameaça crítica de curto prazo.

As crescentes divisões digitais e a adoção da tecnologia representam preocupações

A Covid-19 acelerou a Quarta Revolução Industrial, expandindo a digitalização da interação humana com o e-commerce, educação online e trabalho remoto. Essas mudanças transformarão a sociedade bem depois da pandemia e prometem enormes benefícios. A habilidade para o teletrabalho e o rápido desenvolvimento das vacinas são dois exemplos, mas as alterações também arriscam exacerbar e criar desigualdades. As pesquisas do GRR 2021 classificaram a “desigualdade digital” como uma ameaça crítica de curto prazo.    

Uma lacuna digital cada vez maior pode piorar as fraturas sociais e minar inclusive os prospectos de uma recuperação. O progresso na direção da inclusão digital é ameaçado pela crescente dependência digital, a automação rapidamente acelerada, manipulação, as lacunas no regulamento da tecnologia e as lacunas nas perícias e capacidades de tecnologia. 

Uma geração duplamente perturbada de jovens está emergindo numa era de oportunidades perdidas

Embora o salto digital para adiante tenha desbloqueado oportunidades para alguns jovens, muitos agora estão entrando na força de trabalho sob uma era de gelo do emprego. Jovens adultos ao redor do mundo estão vivenciando a segunda maior crise global em uma década. Já expostos à degradação ambiental, consequências da crise financeira, desigualdade crescente e da ruptura da transformação industrial, essa geração enfrenta sérios desafios relacionados à educação, o que impacta nos prospectos econômicos e na saúde mental.

De acordo com as pesquisas do GRR, 2021, o risco da “desilusão dos jovens” está sendo amplamente negligenciado pela comunidade global, mas ele se tornará uma ameaça crítica ao mundo a curto prazo. Os ganhos sociais a duras penas podem ser anulados se a geração atual perder oportunidades futuras e a fé nas instituições políticas e econômicas de hoje.

Movimentos de manifestações podem explodir pelos países. Se houver a comunicação devida e envolvimento da sociedade, muitos países poderão gerenciar esse tipo de crise. 

O clima continua a ser um risco crescente à medida que a cooperação global enfraquece

A mudança climática – contra a qual ninguém é imune – continua a ser um risco catastrófico. Embora as quarentenas por todo o mundo tenham feito com que as emissões globais caíssem na primeira metade de 2020, a evidência da crise financeira de 2008 e de 2009 alerta que as emissões podem voltar. Uma mudança na direção de economias mais verdes não pode ser atrasada até que os choques da pandemia diminuam. A “falha na ação climática” é o risco mais impactante e o segundo mais provável a longo prazo identificado pelo GRR, 2021. 

As respostas à pandemia provocaram novas tensões domésticas e geopolíticas que ameaçam a estabilidade. A divisão digital e uma futura “geração perdida” provavelmente testarão a coesão social de dentro das fronteiras, exacerbando a fragmentação geopolítica e a fragilidade econômica global. Com impasses e pontos de inflamação aumentando em frequência, as pesquisas do GRR 2021 classificaram o “colapso estatal” e o “colapso do multilateralismo” como ameaças críticas de longo prazo.

As potências médias - os estados influentes que, unidos, representam uma parcela maior da economia global do que os EUA e a China juntos – geralmente são campeões na cooperação multilateral do comércio, diplomacia, clima, segurança e, mais recentemente, da saúde global.

Entretanto, se as tensões geopolíticas persistirem, as potências médias lutarão para facilitar uma recuperação global numa época, cuja coordenação internacional é essencial já que reforça a resiliência contra crises futuras. O GRG 2021 assinala um desafiador panorama geopolítico marcado pela “fratura das relações interestatais”, “conflito interestatal” e “geopolitização dos recursos”. Ou seja, todos previstos como ameaças críticas ao mundo de três a cinco anos.

Figura 5: Matriz de Impactos Cruzados.
Fonte:
Global Risk Report, 16ª edição, 2021

Figura 2: Interconectividade - Riscos Motrizes.

Fonte: Global Risk Report, 16ª edição, 2021

Podemos observar que os nove riscos globais motrizes são: 

Tabela 1: Motricidade dos Riscos Globais.

Fonte: Global Risk Report, 16ª edição, 2021

Reparem que os riscos tecnológicos não são motrizes, mas sim consequentes do contexto que o mundo poderá viver, se nada for feito a curto prazo. Os riscos tecnológicos já estão em andamento, pois vários dos motrizes já estão se manifestando, ocasionando consequências severas aos países. 

Figura 3: Modelagem dos Riscos Globais – Prospectiva.

Fonte: Global Risk Report, 16ª edição, 2021

Notem que todos os riscos sociais e de meio ambiente sem exceção possuem uma prospectiva subida em termos de probabilidade e impacto. Isto significa que se nada for feito, a chance de materialização é muito alta. Os riscos econômicos temos a subida mais da probabilidade e um dos riscos, choque nos comodities, com redução de impacto. Os riscos geopolíticos todos sobem a probabilidade e o risco de armas de destruição em massa aumenta muito a probabilidade já com impacto massivo. Os riscos tecnológicos todos sobem a probabilidade, ficando o colapso na Infraestrutura de TI estacionado.

Panorama industrial polarizado pode emergir na economia pós-pandemia

Conforme as economias emergem do estímulo da Covid-19, os negócios enfrentam uma agitação. As tendências existentes receberam um novo impulso pela crise: agendas nacionalmente focadas para conter perdas econômicas, transformação tecnológica e mudanças na estrutura social, incluindo comportamentos do consumidor, natureza do trabalho e função da tecnologia tanto no trabalho, como em casa. Os riscos comerciais emanando essas tendências foram ampliados pela crise e incluem a estagnação nas economias avançadas e o potencial perdido nos mercados emergentes e em desenvolvimento, o colapso dos pequenos negócios, a ampliação das lacunas entre as grandes e as pequenas empresas, e a redução do dinamismo do mercado sem contar a exacerbação da desigualdade, o que torna mais difícil conseguir um desenvolvimento sustentável de longo prazo.

Com os governos ainda deliberando como se afastar da emergência para a recuperação e as empresas antecipando um panorama comercial modificado, existem oportunidades para investir no crescimento inteligente, limpo e inclusive que melhorará a produtividade e a entrega das agendas sustentáveis.

Melhores atalhos estão disponíveis para gerenciar riscos e aprimorar a resiliência

Apesar de alguns exemplos marcantes de determinação, cooperação e inovação, a maioria dos países lutou com aspectos da gestão de crise durante a pandemia global. 

Embora seja cedo para esboçar lições definitivas, o GRR 2021 identificou como estratégicas para a preparação global quatro áreas vitais da resposta dada a Covid-19: 

- A autoridade institucional;

- O financiamento do risco;

- A coleção da informação;

- O compartilhamento de informações;

- O compartilhamento de equipamentos de vacinas. 

O GRR 2021 identificou cinco domínios para uma resposta eficaz no futuro próximo:

- Tomada de decisões governamentais: os governos serem mais rápidos com informações compartilhadas e lições aprendidas de outros países;

- Comunicação pública: manter transparência por meio de relatórios públicos tipificados, gerando confiança;

- Capacidades do sistema de saúde: muitos países fizeram esforços extraordinários para expandir a capacidade do sistema de saúde na primeira onda da pandemia, por exemplo, atrasando o atendimento eletivo, realocando profissionais médicos e construindo novos hospitais temporários. No entanto, além das deficiências de EPI, os sistemas de saúde também muitas vezes ignoraram o desafio de controlar infecções em instalações de alto impacto, como casas de acolhimento, onde idade e saúde precária deram origem a elevados números de óbitos. Em muitos casos, também não houve premeditação suficiente ao esgotamento crônico entre os funcionários do sistema de saúde, pois as ondas subsequentes da pandemia coincidiram com a necessidade de atender a outras condições que haviam piorado durante os bloqueios; 

- Gestão do confinamento: após a abertura gradual das economias, muitos governos estavam relutantes em reverter bloqueios prolongados em todo o país. Ao invés disso, tentar curtos (duas a quatro semanas) restrições locais mais matizadas (como toques de recolher, fechamentos de hospitalidade, proibições de mistura entre famílias e proibição de viagens). O tempo e condições para a implantação dessas medidas, além de suas perspectivas de sucesso no controle da disseminação do vírus, geraram discussões políticas e resultados mistos resultaram em alguns governos retornando as abordagens nacionais mais restritas;

- Assistência financeira aos vulneráveis: as medidas de bloqueio causaram uma forte desaceleração na produção econômica, colocando em risco empregos e empresas. Os países mais ricos procuraram definir e entregar pacotes de ajuda para os grupos mais afetados e apoiaram os empregadores em seus esforços para reter funcionários. No entanto, a eliminação do apoio deixará muitas empresas com decisões difíceis de emprego. O rápido aumento do desemprego no segundo semestre de 2020 começou a pressionar ainda mais outras disposições do sistema de bem-estar social e os desafios exacerbados de saúde mental. Economias em desenvolvimento com finanças públicas limitadas muitas vezes enfrentavam a difícil escolha entre bloqueios ou pouca assistência financeira para aqueles que perderam seus meios de subsistência e manter suas economias abertas, correndo o risco de rápida disseminação do vírus e sistemas de saúde sobrecarregados. Em muitas economias, os mercados informais também complicaram a distribuição da assistência financeira.

Conclusão

Entretanto, se as lições desta crise informarem apenas os tomadores de decisão sobre como melhor se preparar para a próxima pandemia – ao invés de melhorar os processos, as capacidades e a cultura de risco – o mundo estará novamente planejando para a última crise ao invés de antecipar a próxima. 

A resposta à Covid-19 fornece quatro oportunidades de governança para fortalecer a resiliência dos países, negócios e comunidade internacional. São elas: 

(1) Formular os frameworks analíticos que assumem uma visão baseada na holística e nos sistemas dos impactos de risco; 

(2) Investir nos “campeões de risco” de alto perfil para encorajar a liderança nacional e a cooperação internacional; 

(3) Melhorar as comunicações de risco e combater a desinformação; 

(4) Explorar novas formas de parcerias público-privadas na preparação do risco.

Vejam que dos quatro pontos que o GRR 2021 chegou à conclusão de melhoria em respostas e de antecipação, três são da nossa área: gestão de riscos. Portanto, cabe aos gestores de riscos ficarem atentos com essa enorme oportunidade, pois as empresas e governos estarão a partir de agora tentando identificar os “Campeões de Riscos”. 

O GRR 2021 ressalta que faltou visão de antecipação. Fica claro para mim que houve uma grande falha nos serviços de inteligência, que negaram os sinais de algo que estava por vir. O GRR 2021 descreve as “red flags” que lançou nas suas últimas edições.

O Relatório Global de Riscos tem discutido frequentemente o risco de pandemias para a saúde e os meios de subsistência. A edição de 2020 flagra como os sistemas de saúde em geral estavam despreparados, sem condições de atender alta demanda.

As edições de 2018 e 2019 destacaram ameaças biológicas e resistência antimicrobiana; enquanto a de 2016 ressaltou que a crise do Ebola “não seria a última epidemia grave”. Além disso, alertou que “os surtos de saúde pública provavelmente se tornarão cada vez mais complexos e desafiadores”.

O relatório também explorou aspectos da gestão do risco e da resiliência às crises: as edições de 2018 e 2019, por exemplo, analisaram os impactos da complexidade e do viés cognitivo na avaliação e resposta de riscos. A experiência da Covid-19 oferece uma oportunidade para que a área de gestão de riscos e de inteligência atualize seus processos e métodos de avaliar e monitorar riscos, visando a visão de antecipação e adaptação. 

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