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Sociomaterialidade, Sociedade em Rede e Design Estratégico: Fundamentos para a Integração do Sistema de Segurança Pública no Brasil

Armando Nascimento
Doutorando em Design - Área de concentração: Planejamento e Contextualização de Artefatos (Pesquisa com Foco em Design Organizacional e Segurança Pública), Mestre em Planejamento e Gestão Pública, Especialista em Estratégia e Sistema de Segurança Pública. Pesquisador LABGRC-CCSA/UFPE, NICC/UFPE e LACAI-CAC/UFPE. Professor do Master Business Security - GRC e de Administração Pública. Membro dos Comitês ABNT: Governança Pública; Governança de Organizações; Cidades e Comunidades Sustentáveis; Industria 4.0: Gestão de Projetos; Programa e Portfólio e Gestão de Riscos.

Abril | 2026             

                                                                                                                                 

A complexidade contemporânea da segurança pública exige uma abordagem que ultrapasse modelos tradicionais centrados exclusivamente em estruturas institucionais. Nesse contexto, a sociomaterialidade e a sociedade em rede emergem como paradigmas fundamentais para compreender e operacionalizar sistemas de segurança mais eficientes, integrados e responsivos. Esses conceitos permitem enxergar a segurança pública não apenas como resultado da ação humana, mas como fruto da interação dinâmica entre atores, tecnologias, dados, normas e processos.

 

A sociomaterialidade parte do pressuposto de que o social e o material são inseparáveis. No âmbito da segurança pública, isso significa que políticas, decisões e práticas operacionais estão profundamente entrelaçadas com tecnologias como câmeras inteligentes, sistemas de monitoramento, bancos de dados integrados e plataformas analíticas. Não se trata apenas de utilizar tecnologia como ferramenta, mas de compreender que ela molda e é moldada pelas práticas institucionais. Assim, a eficácia do sistema depende da forma como esses elementos se articulam em rede.

 

Essa perspectiva se conecta diretamente com a ideia de sociedade em rede, na qual fluxos de informação, comunicação e decisão ocorrem de forma descentralizada, porém coordenada. No campo da segurança pública, isso implica a superação de estruturas isoladas e fragmentadas, promovendo uma atuação integrada entre órgãos como as polícias militar e civil, bem como as guardas municipais. A lógica em rede favorece o compartilhamento de informações em tempo real, a cooperação interinstitucional e a construção de inteligência coletiva.

 

Nesse cenário, o design estratégico assume papel central ao estruturar essa complexa rede sociotécnica de forma orientada a objetivos. Ele atua na definição de modelos de governança, fluxos de decisão, arquitetura organizacional e integração de sistemas, garantindo que todos os elementos estejam alinhados às diretrizes nacionais de segurança pública. Já o design da informação é responsável por organizar, visualizar e tornar inteligíveis grandes volumes de dados, permitindo que gestores e operadores tomem decisões rápidas e embasadas.

 

Um exemplo concreto dessa integração é a implementação de uma Central de Comando e Controle. Esse ambiente representa materialmente a convergência entre sociomaterialidade, sociedade em rede e design. Nele, diferentes fontes de dados — videomonitoramento, despacho de ocorrências, inteligência policial e sensores urbanos — são integradas em uma única plataforma. Operadores de diferentes instituições atuam de forma coordenada, compartilhando informações e tomando decisões conjuntas.

 

Nessa central, o design da informação se manifesta em painéis operacionais (dashboards), mapas de calor, alertas automatizados e interfaces intuitivas, que permitem uma leitura rápida do cenário e antecipação de riscos. Já o design estratégico garante que os fluxos de comunicação entre Polícia Militar, Polícia Civil e Guarda Municipal sejam claros, padronizados e eficientes, evitando redundâncias e conflitos de competência.

 

A importância desse modelo se amplia quando analisado à luz do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) e das propostas de aprimoramento institucional, como a PEC 18/2025. Ambos reforçam a necessidade de integração, governança compartilhada e atuação coordenada entre os entes federativos e suas forças de segurança. A central de comando e controle, enquanto infraestrutura sociotécnica, materializa esses princípios ao permitir uma atuação sistêmica, baseada em dados e orientada por resultados.

 

Além disso, a integração das guardas municipais ao sistema mais amplo de segurança pública fortalece a atuação preventiva e territorializada, ampliando a capilaridade das ações e promovendo maior proximidade com a população. Quando inseridas em uma lógica de rede e apoiadas por tecnologias adequadas, essas instituições passam a desempenhar papel estratégico na produção de segurança.

 

Portanto, a articulação entre sociomaterialidade, sociedade em rede, design estratégico e design da informação não é apenas desejável, mas essencial para a construção de um sistema de segurança pública moderno, eficiente e alinhado às demandas contemporâneas. Trata-se de um movimento que reposiciona a segurança pública como um ecossistema integrado, inteligente e orientado à governança colaborativa, plenamente compatível com os princípios do SUSP e com as inovações institucionais propostas no cenário nacional.

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