
Quais são as consequências institucionais de ignorar o papel municipal?
Armando Nascimento
Doutorando em Design Organizacional, Mestre em Planejamento e Gestão Pública, Especialista em Estratégia e Sistema de Segurança Pública. Pesquisador LABGRC-CCSA/UFPE, NICC/UFPE e LACAI-CAC/UFPE. Professor do Master Business Security - GRC e de Administração Pública. Membro dos Comitês ABNT: Governança Pública; Governança de Organizações; Cidades e Comunidades Sustentáveis; Industria 4.0: Gestão de Projetos; Programa e Portfólio e Gestão Risco.
Fevereiro | 2026
Ignorar o papel do município na segurança pública gera consequências institucionais profundas que comprometem a estabilidade e a efetividade de todo o sistema. De acordo com o especialista, as principais implicações são:
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Surgimento de "Trincas" Institucionais: A ausência do município como eixo estruturante provoca falhas graves na arquitetura do sistema, resultando em políticas fragmentadas e investimentos descoordenados que não se sustentam no longo prazo.
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Sobrecarga dos Estados e da União: Sem o protagonismo local para articular as demandas reais de segurança, as instâncias estaduais e federais ficam sobrecarregadas. Isso as obriga a atuar de forma predominantemente repressiva e tardia, respondendo apenas após o crime já ter sido consumado.
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Desconexão com a Realidade Local: Planos de segurança são elaborados de forma verticalizada, tornando-se desconectados das dinâmicas sociais e dos padrões de criminalidade específicos de cada território.
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Ciclo de Reformas Inócuas: O sistema acaba preso em um ciclo de ajustes burocráticos — como mudanças em organogramas e criação de novos planos nacionais — que não entregam resultados concretos. A violência persiste porque essas reformas não possuem uma ancoragem territorial.
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Modelo Reativo e Centralizado: A estrutura institucional torna-se incapaz de lidar com a complexidade da violência contemporânea, pois falha na prevenção e foca apenas na reação centralizada.
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Instabilidade Estrutural: Mesmo com o aporte de recursos, tecnologia ou novas legislações, a falta de uma base municipal sólida faz com que os programas nacionais e estaduais funcionem como "pilares isolados", incapazes de sustentar a "edificação" da segurança pública.
Em suma, a negligência em relação ao papel municipal impede que o Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) enfrente a causa real de sua ineficiência, limitando-se a soluções operacionais ou normativas que não resolvem o problema de arquitetura institucional.
Para ilustrar essa falha, propomos uma analogia com a construção de uma casa: ignorar o município é como tentar reforçar as paredes e o telhado de uma residência construída sobre um solo mal preparado e sem uma viga baldrame (base). Por mais que se invista em materiais caros para a cobertura, as rachaduras e fissuras estruturais continuarão aparecendo, pois a base não consegue distribuir as cargas de forma uniforme, levando, eventualmente, ao colapso da estrutura.
