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Riscos, suas Causas, Consequências e Formas de Tratamento

Décio Luís Schons,  CIEAI, CEGRC, CIGR, CISI
General-de-Exército da Reserva. Vice-Presidente de Operações de Consultoria da empresa Brasiliano INTERISK

Setembro | 2026

 

Entre os profissionais que atuam na gestão de riscos em empresas e instituições dos mais diversos segmentos, é comum surgirem dúvidas sobre a terminologia técnica relacionada ao tema. Embora alguns possam considerar essa questão meramente semântica, entendemos que a adoção de um vocabulário técnico preciso é indispensável para evitar ambiguidades, interpretações equivocadas e falhas na comunicação. Por esse motivo, é essencial distinguir claramente as causas, os eventos desencadeadores, os efeitos e as consequências associadas ao risco em estudo.

 

O raciocínio da gestão de riscos deve sempre partir dos objetivos organizacionais, pois um evento visualizado somente poderá ser considerado um risco se reunir condições para afetar, positiva ou negativamente, o alcance desses objetivos. Além disso, é importante compreender o nível de análise em que se está trabalhando, de forma a evitar a confusão entre causas, gatilhos, impactos e consequências.

 

O que é risco?

 

Conforme definido pela norma ISO 31000, risco é o efeito da incerteza sobre os objetivos da organização, podendo resultar em impactos positivos, negativos ou ambos. Na prática, manifesta-se por meio de eventos ou situações incertas cuja ocorrência afeta o alcance dos objetivos organizacionais.

 

Imaginemos a seguinte situação:

 

Uma empresa depende de um único operador logístico para o transporte de insumos essenciais à sua produção. Uma greve de caminhoneiros interrompe esse transporte por vários dias, provocando atraso na fabricação e na entrega dos produtos. Como consequência, ocorre a perda temporária de receitas, aumento dos custos operacionais e deterioração do fluxo de caixa.

 

Nesse exemplo, o risco corresponde à possibilidade de ocorrência de uma falha logística no abastecimento da organização. Quando essa possibilidade se concretiza, o evento de risco materializado gera impactos diretos sobre a produção e a entrega de produtos. O desequilíbrio no fluxo de caixa, a perda de receitas e o aumento de custos constituem consequências desses impactos.

 

O que é a fonte de risco?

 

A fonte de risco (também denominada fator de risco em alguns modelos metodológicos) é a origem, condição ou causa que cria a possibilidade de ocorrência do risco. Ela está associada às vulnerabilidades ou oportunidades existentes no contexto interno ou externo da organização.

 

No exemplo anterior, poderiam ser identificadas como fontes de risco:

 

  • Dependência excessiva de empresas terceirizadas para o transporte de insumos;

  • Concentração do transporte em uma única rota logística;

  • Ausência de fornecedores alternativos; 

  • Deficiências no planejamento da cadeia de suprimentos;

  • Possibilidade de interrupção prolongada do tráfego rodoviário.

 

Percebe-se que a fonte de risco não é o risco em si, mas sim a condição que favorece sua ocorrência.

 

Para distinguir corretamente o risco de sua fonte, podem ser formuladas duas perguntas fundamentais:

 

1. Qual a incerteza que, caso se concretize, poderá afetar os objetivos da organização? (A resposta identifica o risco).

2. O que gera essa incerteza ou contribui para sua existência? (A resposta identifica a fonte de risco).

 

O que é o evento desencadeador?

 

Outro elemento frequentemente negligenciado nos estudos de gestão de riscos é o evento desencadeador, isto é, a ocorrência concreta que ativa uma vulnerabilidade associada à fonte de risco e transforma uma condição de vulnerabilidade em uma ocorrência real, capaz de materializar o risco.

 

O evento desencadeador funciona como um gatilho, conectando a causa ao risco materializado.

 

Retomando o exemplo anterior, o evento desencadeador foi a greve dos caminhoneiros. Outros possíveis eventos desencadeadores, nesse exemplo, poderiam ser:

 

  • A falência da empresa terceirizada responsável pelo transporte dos insumos;

  • O bloqueio de vias de transporte estratégicas;

  • Uma crise severa no abastecimento de combustíveis.

 

Enquanto a fonte de risco representa uma condição permanente, estrutural ou potencial, o evento desencadeador consiste em uma ocorrência específica e pontual que dá início à cadeia de eventos capaz de comprometer os objetivos organizacionais.

 

Classificação dos eventos desencadeadores

 

Os eventos desencadeadores podem ser classificados como internos ou externos à organização.

 

Eventos internos: são aqueles originados no âmbito da própria organização, tais como:

 

  • Erros humanos;

  • Falhas operacionais;

  • Quebras de equipamentos;

  • Deficiências em sistemas de informação;

  • Decisões gerenciais inadequadas;

  • Fraudes internas.

 

Eventos externos: são aqueles cuja origem é externa à organização, como por exemplo:

 

  • Desastres naturais;

  • Mudanças bruscas no mercado;

  • Crises econômicas;

  • Alterações regulatórias;

  • Instabilidades políticas;

  • Ações de concorrentes;

  • Ataques cibernéticos promovidos por agentes externos.

 

O que são impactos e consequências?

 

Impacto é a alteração produzida pelo risco sobre os objetivos da organização quando ele se materializa. Pode afetar prazos, custos, qualidade, segurança, conformidade, reputação ou qualquer outro objetivo organizacional.

 

Consequência é o resultado decorrente desse impacto. Em muitos casos, uma consequência pode gerar novos impactos, formando cadeias de efeitos sucessivos.

 

Exemplo: uma falha logística gera atraso na produção (impacto). O atraso produz perda de faturamento e insatisfação dos clientes (consequências).

 

Da gestão de riscos à gestão de crises

 

É importante destacar que a ocorrência do evento desencadeador marca o início do processo de materialização do risco. Quando os impactos decorrentes desse processo e suas consequências passam a exigir resposta organizada da instituição, ocorre a transição da gestão de riscos para a gestão de incidentes ou de crises.

 

Enquanto a gestão de riscos atua predominantemente de maneira preventiva, buscando reduzir a probabilidade de ocorrência e minimizar vulnerabilidades, a gestão de crises concentra-se na resposta aos eventos já materializados e nas medidas necessárias para reduzir seus impactos.

 

Após a ocorrência do evento desencadeador, o foco passa da prevenção para a contenção, recuperação e continuidade das operações.

 

Interdependência e propagação dos riscos

 

No ambiente corporativo contemporâneo, caracterizado por forte conectividade e elevada complexidade, os riscos raramente se manifestam de forma isolada. Com frequência, um risco materializado desencadeia outros riscos, produzindo efeitos em cascata.

 

Nesse contexto, destacam-se:

 

  • Riscos motrizes: são aqueles que exercem forte influência sobre outros riscos. Quando se materializam, tendem a desencadear diversos riscos secundários.

  • Riscos dependentes: são aqueles cuja ocorrência está associada à materialização prévia de outros riscos.

  • Riscos de ligação: são riscos que, uma vez ativados por um risco motriz, passam também a influenciar outros riscos, funcionando simultaneamente como consequência e causa dentro da rede de interdependências.

 

Dessa forma, os riscos motrizes podem atuar como fatores geradores da materialização de riscos dependentes e de ligação, razão pela qual recebem atenção especial nos modelos modernos de gestão integrada de riscos.

 

Tratamento dos riscos

 

A finalidade da gestão de riscos corporativos não é eliminar completamente os riscos, algo geralmente impossível, mas reduzir sua probabilidade de ocorrência e minimizar seus impactos a níveis aceitáveis para a organização.

 

O tratamento dos riscos pode ocorrer por meio de diferentes estratégias:

 

  • Evitar o risco: consiste em eliminar a atividade que dá origem ao risco ou modificar substancialmente o processo que o gera.

  • Reduzir o risco: busca diminuir sua probabilidade de ocorrência e/ou a severidade de seus impactos por meio de controles preventivos, detectivos e corretivos.

  • Compartilhar ou transferir o risco: ocorre quando parte das consequências financeiras ou operacionais é transferida a terceiros, como seguradoras, fornecedores ou parceiros comerciais.

  • Aceitar o risco: aplica-se quando o custo de tratamento é superior ao benefício esperado ou quando o risco se encontra dentro dos níveis de tolerância definidos pela organização.

 

Considerações finais

 

Uma gestão de riscos eficaz exige a correta identificação das fontes de risco, dos eventos desencadeadores, dos riscos propriamente ditos e de suas consequências. A compreensão dessas diferenças permite construir controles mais adequados, melhorar a capacidade de prevenção e fortalecer a resiliência organizacional diante de cenários incertos.

 

Quando a organização compreende não apenas os riscos que enfrenta, mas também suas causas, seus gatilhos e suas possíveis inter-relações, torna-se mais preparada para proteger seus objetivos estratégicos e aproveitar oportunidades de forma segura e sustentável.

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