ANÁLISE

2018 ano que a Gestão de Riscos poderia ter evitado quatro grandes eventos massivos para o país!

Antonio Celso Ribeiro Brasiliano, CIGR, CRMA, CES, DEA, DSE, MBS 

Publisher da Revista Gestão de Risco e Presidente da Brasiliano INTERISK.

abrasiliano@brasiliano.com.br.br

Estamos fechando as cortinas de 2018, e, fazendo uma retrospectiva podemos afirmar que a falta de processo e Gestão de Riscos Corporativos poderia ter evitado, de forma direta quatro eventos considerados massivos para as instituições e para o Brasil. A falta de processo de gestão de riscos, neste século XXI é também considerada uma irresponsabilidade de gestão, portanto a administração de qualquer tipo de empresa deve ficar atenta para gerir bem seus riscos que possam impactar seus objetivos estratégicos. 

PRIMEIRO EVENTO – Incêndio em São Paulo – Edifício Wilton Paes de Almeida

Podemos começar descrevendo o incêndio do Edifício Wilton Paes de Almeida, localizado na cidade de São Paulo, no dia primeiro de maio de 2018, patrimônio histórico, tombado, que foi vítima junto com seus ocupantes da incompetência do Estado, das três esferas: municipal, estadual e federal. O resultado não podia ser outro, pois uma edificação largada e abandonada, só podia ser ocupada. Só que neste caso cerca de 320 pessoas perderam suas moradias, improvisada e insalubre, quando um prédio todo envidraçado e minimalista sucumbiu, como se fosse de gesso, às chamas. O Edifício Wilton Paes de Almeida, tinha sido sede da Polícia Federal por quase 20 anos, quando em 2003, mudou para uma nova sede, a edificação ficou sem dono, abandonada e largada.

A cidade de São Paulo possui hoje cerca de 206 ocupações de edificações, sendo 70 no centro. Isto equivale a 46.000 famílias largadas a própria sorte. 

Como não houve gestão de ativos e de risco operacional sobre as suas condições de utilização, obrigação do dono e do estado, expôs a própria sorte as famílias que lá habitavam. Um sintoma de incompetência, negligência e imprudência. Não há como justificar tal descaso. Temos ferramentas, metodologia para evitar tais situações. Não se justifica dizer que não existem recursos. O que falta é bom senso em priorizar as ações e atitude em agir. A sorte da cidade de São Paulo foi não ter nenhuma vítima fatal. Deus foi de fato brasileiro!

SEGUNDO EVENTO – Greve dos Caminhoneiros – 10 dias de paralisação, 21 de maio a 30 de maio de 2018

O segundo grande evento, este massivo, pois mexeu com a economia do Brasil foi a greve dos caminhoneiros, que teve início em 21 de maio e término em 30 de maio de 2018. A greve que causou um clima de inquietação e transtornos para grande parte da sociedade brasileira e prejuízos bilionários para quase todos os segmentos empresariais. Além de expor a fragilidade do Governo Federal, do Presidente Michael Temer, que não teve reação estruturada alguma, pois o que a sociedade brasileira vivenciou foi uma inepta e rudimentar negociação que só fez aumentar o clima de tensão. Diante do todo cenário podemos afirmar que faltou gestão de risco operacional da greve de caminhoneiros, integrada com riscos políticos e de mercado. Ou seja, uma perfeita interconectividade entre as várias disciplinas de riscos. Além é claro da elaboração de Cenários Prospectivos. 

A paralisação das estradas com os bloqueios dos caminhoneiros, demonstrou que o Brasil e toda a sociedade, incluindo os governos nas três esferas e os segmentos empresariais, mostraram-se completamente despreparados. Sim, despreparados porque não souberam reagir a um cenário de descontinuidade, que já estava escrito há algum tempo, pelo descontentamento que os motoristas de caminhão vinham desenhando. 

 A interconectividade dos fatos e suas correlações, fizeram com que o movimento reivindicatório do preço dos combustíveis e anulação de pagamento de pedágio para eixo erguido dos caminhões, tivesse um efeito exponencial. Tendo em vista que grande parte da sociedade apoiou de forma inconteste os caminhoneiros. Este apoio da sociedade, mais a pressão da descontinuidade das principais atividades e o fluxo de insumos agropecuário e industrial, acoplado com a forma incisiva com que a classe dos motoristas de caminhões manteve a paralisação, fez com que o Governo Temer cedesse rapidamente aos pedidos reivindicatórios. 

Fato é que por falta de visão de cenários de riscos de descontinuidades, inúmeros segmentos ficaram paralisados e desabastecidos, colocando em risco a vida de cidadãos. Podemos citar como exemplo o desabastecimento de remédios e de gás de oxigênio nos hospitais das grandes capitais brasileiras. Mais uma vez assistimos, de camarote, gestores públicos e privados atuando como bombeiros, rezando para que a greve cessasse. Quando o governo concordou em atender a uma série de reivindicações dos caminhoneiros, a paralisação terminou, e o problema imediato foi resolvido. Mas como as ações são interconectadas, a negociação do governo potencializou, com uma velocidade exponencial, outros riscos.

A nossa economia, já frágil, com esta paralisação sofreu duros e grande golpes. O impacto por dia parado dos caminhoneiros, gerou uma improdutividade na ordem de 3 bilhões de reais de riqueza. Ou seja, houve perdas nos produtos perecíveis, perdas da indústria e do comércio pelos dias parados, dificuldade de prestar serviços, em função da perda da mobilidade. Segundo pesquisa das operadoras de cartões de crédito no Brasil, as vendas de varejo caíram 18%, no auge da paralisação, mesmo com o aumento das vendas nos supermercados. Afeta na veia nosso PIB, que já não era essas coisas, então o que podemos esperar? Um “pibinho” pela frente é o que iremos enfrentar. A prospectiva é um PIB de 1,9% para 2018. Consequentemente a taxa de desemprego subiu para 12,5%. O choque foi abrupto na desconfiança no Brasil!

 O Brasil deu um passo para trás, o que não fazia desde 2014, quando cortou impostos e criou subsídios para reduzir o preço do diesel. Interveio na política de preços da nossa gigante Petrobras. A conta é espinhosa e somos nós que pagaremos esta fatura. A conta será paga com a volta do imposto de contribuição previdenciária sobre a folha de pagamentos de 39 setores e também com o corte de gastos em infraestrutura, educação, saúde, entre outros. O Banco Credit Suisse estima que nosso déficit fiscal para 2018 tenha um aumento de 0,74%, o que significa uma paulada de 16 bilhões de reais, indo para 154 bilhões de reais. O presidente da Petrobras, que fez a virada da mesa, Pedro Parente, reduzindo o endividamento e elevando o lucro trimestral para 7 bilhões de reais, pediu demissão em função do não cumprimento do acordo do governo federal em não intervir. A Petrobras perdeu 100 bilhões de reais em valor de mercado com a paralisação dos caminhoneiros.   

     

Ou seja, por falta de uma gestão de riscos estratégicos, operacionais, trabalhando a interconectividade e integrando os cenários, o Brasil perdeu e muito pela falta de visão dos gestores públicos e privados. Mais um sintoma de incompreensão do uso de ferramenta preventiva de riscos na inteligência, visando possuir uma visão prospectiva.    

VEJA O ESTUDO COMPLETO DA GREVE DOS CAMINHONEIROS

TERCEIRO EVENTO – Incêndio no Museu Nacional Rio de Janeiro

O terceiro evento que poderia ter sido evitado foi o lamentável incêndio no Museu Nacional, localizado na cidade do Rio de Janeiro, no domingo dia 02 de setembro de 2018, com todo seu acervo de quase 200 anos, o mais antigo do Brasil. Virou pó, ao ser consumido pelo incêndio. Tragédia anunciada. Sem condições de reparo. O Brasil perde sua história, e, sem história não há inovação. 

Uma sociedade que não consegue preservar a sua memória, não consegue evoluir, muito menos inovar. A sociedade fica idiotizada, pois deixa de conhecer suas origens e valorar sua cultura.   

O Museu Nacional, localizado na Quinta da Boa Vista, no palacete imperial, fundado por Don João VI, em 1818 e continha em seu acervo mais de 20 milhões de itens, com perfil acadêmico e científico, coleções focadas em paleontologia, antropologia, e etnologia biológica. Menos de 1% estava exposto. Este ano o Museu Nacional, comemorou 200 anos e recebeu de presente esta tragédia. 

O que não entendemos é que apesar da estupidez da falta de recursos, falta de verba em tratar e prevenir a instalação com equipamentos de detecção e combate ao fogo, é a falta de visão crítica e posso até dizer coragem em colocar o “bode na sala”. “Bode na sala” significa colocar o problema na sala, que é um problema grande e que causa incômodo porque cheira mal. Uma forma de ter colocado o bode na sala era ter interditado o museu, por falta de segurança. Ter mandado fazer um laudo por um técnico, engenheiro, um consultor, afirmando que o Museu não possuía condições de utilização. 

O Museu Nacional estava em péssimas condições, com as partes elétricas totalmente fora de padrões, expostas, sem sistemas de detecção, combate, ou equipes especializadas. 

Chegamos ao limiar da incompetência quando o Corpo de Bombeiros chegou para dar o combate ao fogo e não tinha onde captar água, ainda teve que pedir suporte de carros pipas cedidos pela Companhia de Água e Esgoto da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro. Falta total de planejamento e preparo. Incompetência pura. E pior, só lamentamos! Este é nosso modelo mental. 

A atitude dos nossos gestores é de puro amadorismo, para quem administra uma entidade pública de extrema importância como a do Museu Nacional. Se o Governo Federal não possui visão ou competência e responsabilidade de repassar verba, cabe ao gestor então interditar a instalação por falta de segurança. Com a interdição realizada, o bode estaria na sala, chamaria a atenção da mídia, pois as visitações estariam suspensas, atividades acadêmicas e de pesquisas paralisadas, poderia haver manifestações, e aí soluções teriam que surgir, através do Ministério Público. 

Era uma tragédia anunciada porque os gestores já sabiam que as condições eram péssimas e o grau de risco muito alto, com problemas na instalação do Museu. Então pergunto: esperávamos o que? Um milagre? Que mandando ofício e cartas a verba vinha automaticamente? Que Deus seria brasileiro? Realmente não o que se passa nas cabeças dos gestores? Falta coragem, complacência ou pura incompetência? 

O que sei é que por falta de gestão de riscos, um técnico de segurança do trabalho interditaria o Museu, uma vez que, seguindo as NR que são reguladas pelo Ministério do Trabalho, teria alçada para paralisar as atividades. Então senhores, chego a conclusão que é incompetência integrada a complacência. 

QUARTO EVENTO – Viaduto que cedeu em São Paulo – Risco de Ativo

Nosso quarto evento é o Viaduto que cedeu em São Paulo. Na madrugada do 15 de novembro de 2018, no feriado, um viaduto cedeu e causou a interdição do trânsito em trecho da pista expressa da Marginal Pinheiros, perto do Parque Villa-Lobos e da Ponte do Jaguaré, por volta das 3 horas e 30 minutos. Cinco carros passavam pelo local, quando ocorreu a descida do vão do viaduto com quase dois metros, fazendo com que os veículos simplesmente sumissem e caíssem desta altura. Felizmente não houve feridos em estados graves. 

Os depoimentos foram surreais, pois a ideia é que os carros estivessem sendo engolidos pelo viaduto. O pessoal começou a acenar para que os outros veículos parassem e freassem, evitando assim maiores acidentes. 

Senhores como gestor de riscos, não tenho como justificar que um viaduto venha a ceder e não dê nenhum aviso, sintoma. A prefeitura não pode vir a público e tentar se justificar pelo que aconteceu, colocando a culpa no famoso Cisne Negro! A pista cedeu em cima de seu pilar de sustentação, fazendo-o rachar, além de ter uma trinca no asfalto com extensão de 530 metros. As justificativas são muitas, entre elas a vibração da linha férrea que passa embaixo do viaduto com uma velocidade de 60 km por hora. Esta vibração colaborou para haver este colapso. Então as vistorias deveriam ter um intervalo de tempo menor ou a velocidade dos trens serem bem abaixo de 60 km. 

A Prefeitura de São Paulo afirmou que possui um programa de vistorias nos seus 185 viadutos e pontes da capital, e que não havia identificado riscos estruturais. A gestão Bruno Covas, do PSDB, informou ter aberto um edital dia 09 de novembro para projetos de manutenção preventiva de 33 viadutos e pontes classificados como prioritários. Detalhe, o que cedeu não estava na lista. Imagine como estão os tidos como prioritários!

Na minha visão, como especialista, o que faltou para a Prefeitura de São Paulo é um processo estruturado de Gestão de Ativos, integrado com Gestão de Riscos, foco nas suas Infraestruturas consideradas críticas. Seguindo as premissas da ABNT NBR ISO 55001- Gestão de Ativos - Sistemas de Gestão – Requisitos, os documentos estratégicos que deveriam existir seriam: 

1 Critérios de Decisão – documento que contém as informações aprovadas pela prefeitura de São Paulo para apoiar a tomada de decisão, tanto qualitativo como quantitativo;

2 Política de Gestão de Ativos: são as escolhas que explicitam as direções dadas para o cumprimento dos objetivos;

3 Plano Estratégico de Gestão de Ativos – SAMP – informações documentadas que especificam como os objetivos da Prefeitura de São Paulo serão convertidos em objetivos de Gestão de Ativos;

4 Plano de Gestão de Ativos – AMP – informação documentada que especifica as atividades, recursos e prazos requeridos pros ativos individuais, de forma que sejam atingidos os objetivos da Gestão de Ativos;

5 Processo de Gestão de Riscos de Ativos: processo estruturado com foco em Riscos x Custos x Desempenho, mantendo um equilíbrio custos associados ao desempenho dos ativos, com um determinado nível de risco. 

O processo acima não pode ser mais realizado sem uma ajuda de um Sistema de TI, não pode ser operacionalizado com base em planilhas, caso contrário corre-se o risco de haver perda de informações estratégicas e de suma importância para os ativos, colocando vidas em exposição. 

No nosso caso o INTERISK supre esta necessidade, pois auxilia de forma direta os gestores a operacionalizarem e controlarem a relação custo benefício. 

Estes quatro eventos demonstram claramente nosso nível ainda, imaturo, de possuir um processo estruturado de Gestão de Riscos. No meu entendimento somente com uma legislação forte, contrapeso em cima dos gestores, é que o amadurecimento irá surgir. Pois, infelizmente a complacência ainda é muito grande!  

Foto: Rovena Rosa | Agência Brasil

Foto: Valter Campanato | Agência Brasil

Foto: Tânia Rêgo | Agência Brasil

Foto: Tomaz Silva | Agência Brasil

Foto: Rovena Rosa | Agência Brasil

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