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RISCO POLÍTICO

A importância estratégica do Risco Político no século XXI

Prof. Dr. Antonio Celso Ribeiro Brasiliano, CIEIE, CPSI, CIGR, CRMA, CES, DEA, DSE, MBS
Doutor em Ciência e Engenharia da Informação e Inteligência Estratégica pela
Université Paris – Est (Marne La Vallée, Paris, França); presidente da Brasiliano INTERISK.

Risco implica na criticidade, probabilidade versus impacto, que pode ser positiva ou negativa. A criticidade positiva é o ganho, a vantagem que a empresa ou governo terá em determinado projeto em sua execução. Embora tenha havido riscos, estes quando mensurados direcionaram para uma vantagem financeira, competitiva e ou operacional. Já a criticidade negativa é perda, falha, na execução de um determinado projeto, podendo gerar significativos impactos em sua imagem, em seu fluxo de caixa e respectivo patrimônio. 

Quando os líderes empresariais ou líderes políticos empreendem determinado tipo de ação política – o estabelecimento de relações diplomáticas, uma aliança defensiva ou um acordo de livre comércio, líderes políticos geralmente esperam resultados positivos, que se materializarão, por exemplo, na forma de apoios eleitorais. Executivos esperam obter ganhos econômicos para suas empresas através do seu trabalho – a fusão com uma companhia do mesmo setor, a aquisição de empresas rivais, a entrada num mercado até então inexplorado. Em ambos os casos, há a confiança de que os riscos de perdas e prejuízos serão suplantados por sucessos substanciais.

1. Análise de Risco Político

A análise de risco tem como objetivo lidar com as incertezas, que são, por definição, imprevisíveis, embora possam ser conhecidas. Mas ela tem, também, uma função mais prática para governos, empresas e organizações: possibilitar o gerenciamento dos riscos. Com esse objetivo, a análise de riscos procura identificar os fatores de riscos que podem potencializar, aumentar a probabilidade e o impacto dos riscos positivos e negativos, que terminariam por aumentar ou reduzir os ganhos esperados de uma ação política ou do empreendimento econômico.

Uma compreensão antecipada dos riscos que poderiam surgir na implementação de um projeto geraria conhecimento que permitiria aos tomadores de decisão buscar diminuir a probabilidade dos eventos indesejáveis, ou o impacto de eventos prejudiciais e inevitáveis. Além de deixar a empresa e o projeto em condições muito mais flexível para adaptação, em um ambiente extremamente volátil como estamos vivendo. 

2. Risco Político – Conceito e Categorias 

Para Ian Bremmer, Presidente da Empresa de Consultoria Eurásia, especializada em Riscos Políticos, uma das maiores do mundo, o risco político é a probabilidade de que ações políticas produzam mudanças nos resultados econômicos esperados por vários agentes.

 Nessa definição, podemos entender que possíveis ameaças derivadas do risco político podem afetar governos, empresas de qualquer tamanho e sociedades. Mas, no início do século XXI e com o aprofundamento da globalização econômica, fica evidente que as ameaças, surpresas e problemas têm a sua escala multiplicada pela esfera internacional – aqui visto como um ambiente de extrema competição econômica e política. Do ponto de vista geopolítico, grandes potências estabelecidas cooperam e entram em conflito com potências ascendentes globais e regionais. Ao mesmo tempo, corporações que têm interesses basicamente atrelados ao lucro, devem lidar com essa situação política e acrescentam outra camada de problemas em termos de tomada de decisão. E, para agregar mais variáveis que aumentam a instabilidade do sistema, vários atores não estatais surgem para complicar a equação no campo da segurança, caso de grupos terroristas, como a Al Qaeda e suas organizações afiliadas, ou de forças criminosas, como os narcotraficantes mexicanos.

Baseando no texto do “Risco Político” do site Insight Político, podemos citar uma série de categorias de riscos políticas e suas causas, conforme a tabela abaixo.

A Análise do Risco Político operaria num horizonte temporal de acordo com o contexto vivenciado no país ou região estudada. Abordaria problemas políticos específicos de determinados países ou regiões, mas desenvolveria cenários de possíveis desdobramentos futuros. O objetivo seria fornecer, para governos e organizações, a possibilidade de contar com sintomas e alertas antecipadas, identificando possíveis tendências. Aqueles que soubessem lidar melhor com esses cenários poderiam se posicionar e minimizar os riscos de perdas políticas ou prejuízos econômicos ou, alternativamente, poderiam lucrar com cenários adversos porque se preparam para o pior dentro de considerações analiticamente coerentes. 

3. Nassim Taleb e o Cisne Negro para o Risco Político 

Nassim Taleb, autor do famoso livro o Cisne Negro e de mais outros dois, o Antifrágil e Arriscando a própria Pele, como um ex-investidor e matemático da bolsa de valores americana, que durante anos aplicou ferramentas objetivas e complexas para trabalhar com cenários e riscos, nesta trilogia escrita ele condena a aplicação de sistemas lineares como forma de enxergar o mundo. Hoje, taxativamente, ele, um libanês-americano, é um completo descrente de metodologias de construção de cenários e de análise de riscos. Para ele, a maioria dos métodos matemáticos desenvolvidos por economistas e investidores financeiros, apesar de altamente sofisticados, são baseados numa visão do mundo como um sistema linear, que pode ser previsto através de ferramentas estatísticas convencionais, e em especial aquela que trabalha com a lógica da distribuição de Gauss. Isso gera uma série de distorções e miopias, pois o mundo atual é extremamente complexo e volátil, escapando dessa modelagem. Ele expôs esta sua visão junto com Mark Blyth, em um artigo na revista Foreign Affairs, onde tenta aplicar a sua teoria na análise da Primavera Árabe e da Política Externa dos EUA para o Oriente Médio. Os autores fazem um paralelo com a crise de 2008, e a resposta do governo americano: as elites econômicas e políticas dos Estados Unidos alegaram que ninguém poderia antecipar o colapso dos subprimes. A mesma afirmação foi feita para explicar a surpresa com as rebeliões, agitação social e revoluções políticas que atingiram os países árabes.

Todavia Taleb e Blyth defendem a ideia de que o erro primordial foi que o sistema econômico e político, no caso dos subprimes, e o governo americano, no caso da Primavera Árabe, tentaram controlar o futuro suprimindo artificialmente a volatilidade. Quando apoiaram governos repressivos no Egito, eles se guiaram pela necessidade de conseguir aliados estáveis, que garantissem uma previsibilidade política que pudesse se irradiar por toda a região. Ao fazerem isso, eles criaram uma bolha artificial para um sistema extremamente complexo composto de estruturas estatais e das respectivas sociedades. Como resultado, as demandas sociais não foram devidamente processadas pelos governos árabes, e os riscos ficaram submersos, não sendo visíveis pelos governos árabes e para os EUA. Só que eles estavam lá, imersos, esperando apenas serem acordados. Somente alguns analistas e observadores mais atentos perceberam isso. Como o futuro é, em essência, imprevisível, a única maneira de se lidar com incertezas futuras é deixar que os riscos flutuem e sejam expostos e debatidos social e politicamente, e como resultado, as soluções podem surgir e minimizar os riscos de explosões sociais.

As pessoas teriam uma capacidade de previsão muito limitada, baseada em sua experiência passada. Com a volatidade, complexidade e incerteza do mundo atual, os riscos acontecem numa velocidade extremamente grande, em redes interconectadas, gerando uma relação de causa e efeito, o que causa miopia para quem não realiza os impactos cruzados. Tentar apostar na mesma linha de ação porque ela funcionou no passado é ignorar esta volatidade, complexidade, incerteza e conectividade, e tanto vale para o mercado de ações como para a política. 

A política é um sistema instável, e tentar usar ferramentais que funcionam bem na engenharia, na química ou em certos ramos da física, simplesmente máscara o problema. É impossível prever com um alto grau de exatidão, ou mesmo com o grau de confiança estatística existente nos jogos de azar, eventos políticos que levam a revoluções. O que temos são hipóteses, que devemos monitorar. 

Ian Bremmer discorda dessa proposta de Taleb. Para ele, esta abordagem possui limitações. Na sua opinião a maioria das organizações muito provavelmente sofrerá os impactos de problemas menores, como greves ou corrupção, e não eventos catastróficos como revoluções, guerras ou o colapso dos estados. Os riscos que brotam desses problemas menores podem ser antecipados, e os seus efeitos graduais e cumulativos podem ser mensurados. 

Organizações, sejam elas governos ou empresas, que enfrentam riscos políticos, não podem se preocupar apenas com eventos gigantescos, catastróficos e imprevisíveis, os cisnes negros na terminologia de Taleb, mas devem se preocupar com os riscos dentro de uma perspectiva mais realista e pragmática. 

Na minha opinião, creio que os dois estão certos, hoje com o mudo VUCA, temos que saber monitorar e gerenciar desde os cenários severos até os chamados “Mapas do Infernos”, com riscos de impactos massivos que possuem alta conectividade e motricidade, potencializando outros riscos. Um ponto é importante ressaltar o Risco Político sempre estará atrelado aos fatores humanos, que possuem motivações e limitações. Se conseguirmos entender e mapear as motivações que levam o indivíduo a praticar determinadas ações, então pode ser factível construir cenários, integrando risos futuros nas análises. 

4. Gerenciamento dos Riscos Políticos Interconectados   

Condoleezza Rice, ex-Secretária de Estado dos Estados Unidos no governo George W. Busch, 2005 a 2009, cientista política, diplomata, professora de economia e política da Faculdade de Administração de Stanford e também de Amy Zegart, que é membro sênior do Centro de Segurança e Cooperação Internacional da Stanford University,escreveram o livro Political Risk, e nele descrevem um framework para gerenciar risco político para este século XXI.

No contexto atual do mundo VUCA, extremamente volátil, incerto, complexo e ambíguo, embora não possa afirmar que aja um modelo único, sugiro olharmos com maior carinho a estrutura que gerencia e suporta os riscos políticos deste século conturbado.  

As autoras sugerem a Estrutura Focada em 4 Competências: 

1. Entender os riscos;

2. Analisar os riscos;

3. Mitigar os riscos que não podem ser eliminados;

4. Responder aos riscos, com um processo de gerir a crise e um aprendizado constante. 

Em cada passo da estrutura, são apresentadas três perguntas primordiais que qualquer pessoa em qualquer organização pode fazer para abordar as questões mais importantes, conforme figura abaixo. 

Ninguém pode prever como que a história se desenrola, mas administrar e gerenciar o risco interconectado, não precisa ser apenas uma hipótese. Não há necessidade exata de saber de onde virá o risco interconectado para estar preparado para enfrentá-lo.

Segundo a Condoleezza Rice e Amy Zegart, as empresas mais eficazes na condução de crises possuem três pontos em comum: 

1. Levam os riscos políticos interconectados a sério;

2. Abordam sistematicamente e continuamente os riscos políticos interconectados;

3. Consideram os riscos políticos interconectados desde o início.

5. Conclusão

Há necessidade do gestor de riscos, para ser estratégico e agregar valor para sua empresa, sempre buscar algo, nunca estar satisfeito. O gestor de riscos precisa mais e mais de verdadeiros Nexialistas, aqueles que possam provocar mudanças nas mais diversas esferas. 

Diante de situações extremas, crises disruptivas, típicas do risco político do século XXI, o gestor de riscos deve quebrar o status quo. Somente desta forma conseguirá fazer com que a empesa, no meio da bruma, consiga a acuidade perceptiva, que faz com que a empresa consiga sair da crise mais fortalecida.     

O que o gestor de riscos não pode ser é conformista. Ter medo de perder, ter medo de arriscar. Os conformistas, por medo e fraqueza moral, deixam acontecer as grandes atrocidades empresariais.

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