ANÁLISE

A Alemanha conseguiu driblar a pandemia?
Qual é sua estratégia?

Prof. Dr. Antonio Celso Ribeiro Brasiliano, CIEIE, CPSI, CIGR, CRMA, CES, DEA, DSE, MBS
Doutor em Ciência e Engenharia da Informação e Inteligência Estratégica pela
Université Paris – Est (Marne La Vallée, Paris, França); presidente da Brasiliano INTERISK.

A pandemia do novo coronavírus, que gerou a doença nomeada como Covid-19
(co, de “corona”; vi, de “vírus”; e d, de “doença”), tem atingido países e regiões de forma distinta, seja em termos de taxa de contaminação, ou em número de mortos.

 

A forma como os governos encaram o risco de contaminação e a velocidade/eficácia das medidas de mitigação passam, então, a ser fundamentais para antecipar (prever) os impactos futuros da crise.

O que há em comum em todos os lugares, hoje, é a convicção de que a pandemia é grave e vai mudar o cenário político de forma ampla.

 

Observa-se que tem havido duas estratégias para enfrentar o COVID-19. 

1) Modelo “asiático” (predominante na China, Coreia do Sul, Japão e Alemanha);

2) Modelo “europeu” (Itália, Espanha, França e Estados Unidos). 

Os resultados da adoção dos modelos de contenção têm sido distintos, principalmente quanto ao número de mortos.

Os Modelos possuem a seguinte estratégia de enfrentamento: 

1) Modelo Europeu: Os países que demoraram a implementar o isolamento social, ou seja, cerca de dois meses após o registro do primeiro caso – Itália (09/03), Espanha (14/03) e EUA (24/03) –, depois de registrarem um avanço lento da doença nas primeiras semanas, tiveram uma “explosão” de contaminações e mortos após pouco mais de um mês do início da pandemia.

2) Modelo Asiático: Os países como: China, Coréia, Japão e Alemanha, que demoraram em torno de um mês para implementar medidas restritivas, em cerca de três meses conseguiram controlar a pandemia em seu território, reduzindo tanto o número de novas contaminações quanto o de mortes. Ressalva que alguns destes países fizeram outras medidas em conjunto, tais como testagem em massa e monitoramento da localização, através de aplicativo de celular, de quem estava contaminado, e com isso isolava a pessoa em sua residência.

Alemanha e a Estratégia do Modelo Asiático:

“A situação é séria. E vocês precisam levá-la a sério. Desde a reunificação da Alemanha… Não, não. Desde a Segunda Guerra Mundial, não há em nosso país um desafio que dependerá tanto de nossa ação solidária conjunta.” 

Esta declaração foi feita pela chanceler alemã, Angela Merkel, no sábado, 21 de março de 2020, dá uma ideia da dimensão do impacto da pandemia do COVID-19 abrange todo o planeta.

Mas há algo que diferencia bastante o avanço da doença na Alemanha e que chama a atenção de especialistas e autoridades. O número conhecido popularmente como taxa de mortalidade, ou seja, o total de pessoas que morrem em relação ao total de infectados, é mais baixo do que em outros países.

A Alemanha possui hoje, 08 de abril, 110.483 casos confirmados com óbitos de 2.183, o que nos dá uma taxa de mortalidade ou letalidade de 2%. A mais baixa da Europa ocidental. A título de comparação, a Espanha possui 146. 690 e 14.693 mortes, com uma taxa de letalidade de 10%, já a Itália tem 139.422 e 17.699 mortes, com uma taxa de letalidade de 12,7%, Diferenças brutais. 

O que explica essa discrepância? O sucesso da estratégia alemã no combate ao COVID-19, segundo especialistas, é composto de quatro pilares.

 

PRIMEIRO PILAR: TESTES EM MASSA – IDENTIFICAÇÃO PRECOCE

“Não podemos dizer com precisão por que a taxa de mortalidade na Alemanha é mais baixa, mas é importante lembrar que estamos em uma fase anterior da epidemia dentro do país”, explicou à BBC News Mundo (serviço da BBC em espanhol) o Instituto Robert Koch de Virologia, responsável pela estratégia alemã de combate ao COVID-19. “Mas é certo que temos recomendado, desde o momento em que tivemos ciência dessa emergência de saúde, ampliar o número de exames feitos na população e reduzir a possibilidade de contágio.”

Para Jeremy Rossman, professor de virologia da Universidade de Kent, no Reino Unido, uma das chaves para explicar a baixa mortalidade na Alemanha pode ser o diagnóstico precoce, que evita a disseminação da doença. “O caso alemão mostra que isso não é só uma boa estratégia como é um componente essencial na luta contra a pandemia.”  Rossman cita o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, que defende que não é possível combater o vírus sem saber onde ele está. “E é exatamente isso que os exames fazem.” O especialista explica que a aplicação maciça de testes na população deve envolver mesmo as pessoas que apresentem sintomas leves. Segundo um amplo estudo na China com dezenas de milhares de pessoas infectadas, cerca de 80% de pacientes confirmados positivos para o coronavírus tiveram sintomas leves ou moderados, 13,8%, severos e 4,7%, graves.

SEGUNDO PILAR: VISÃO DE ANTECIPAÇÃO E FAIXA ETÁRIA

A Alemanha também teve tempo a seu favor, pois os primeiros casos foram detectados duas ou três semanas antes do que em alguns de seus países vizinhos, permitindo que as autoridades tomassem medidas para combater a pandemia.

Mas isso aconteceu antes mesmo da doença chegar ao país. O primeiro caso foi registrado na Alemanha em 27 de janeiro, mas o país já tinha criado um comitê permanente de vigilância em 6 de janeiro, apenas uma semana depois que a OMS recebeu um alerta da China sobre uma doença ainda misteriosa.

Foi naquele momento que os testes de detecção da doença se tornaram parte fundamental da estratégia alemã. Visão de Antecipação!

“O amplo escopo dos exames nos permitiu identificar a epidemia desde muito cedo e isso nos ajudou a trabalhar com ela”, explicou Lothar H. Wieler, diretor do Instituto Robert Koch. Segundo o Instituto Koch, a Alemanha tem capacidade de realizar 160 mil exames por semana.

Na Itália, onde a pandemia tem sido mais devastadora, foram realizados ao todo 150 mil testes até o dia 20 de março. No Reino Unido, foram 50 mil e na Espanha, 30 mil. 

Na Coreia do Sul, país citado como exemplo por especialistas em razão de sua capacidade de realizar testes entre a população, foram realizados cerca de 70 mil exames por semana. No país asiático, há 8.961 infectados e 111 mortes (taxa de 1,23%).

Outro fator que influencia a baixa taxa de mortalidade pelo COVID-19 na Alemanha é que uma grande parte dos infectados são pessoas jovens, que não sofrem tanto os efeitos da doença quanto os idosos. Muitos nem chegam a apresentar sintomas. Na Alemanha, mais de 70% das pessoas identificadas com o vírus têm entre 20 e 50 anos.

Por outro lado, na Itália, o segundo país com a população mais velha do mundo (atrás do Japão), a média de idade dos diagnosticados com o COVID-19 é de 66 anos, e 58% têm mais de 60 anos.

Alguns especialistas afirmam ser possível que, quando o vírus atingir a população mais velha na Alemanha, a taxa de mortalidade no país também aumente.

No amplo estudo realizado na China, a taxa de mortalidade identificada variava de acordo com a faixa etária: 0,2% para pessoas com até 39 anos, 3,6% para quem estava na faixa dos 60 anos e 8%, para as pessoas entre 70 e 79 anos.

 

Fonte: Quantitativos da Alemanha, Site www.bing.com/covid

TERCEIRO FATOR: DETECÇÃO PRECOCE COM QUARENTENA E DISTANCIAMENTO SOCIAL 

Merkel, que tem 65 anos, será submetida a exames regularmente nos próximos dias. Enquanto isso, trabalhará de casa.

Na Alemanha, todos aqueles que apresentam sintomas ou tiveram contato com alguém diagnosticado com a doença ou alguém procedente das chamadas “zonas vermelhas” (como a Itália e a província chinesa de Hubei) podem ser submetidos aos testes.

Outra medida das autoridades sanitárias alemãs também teve um impacto positivo nos números até o momento.

Segundo especialistas, quando surgiu o primeiro caso, o país agiu rapidamente e conseguiu identificar o paciente zero, um jovem infectado por uma cidadã chinesa que havia visitado a região alemã da Bavária e não havia apresentado nenhum sintoma ao longo de sua estadia no país.

Além das medidas sanitárias que têm surtido efeito até o momento, o governo de Merkel decidiu também ampliar as medidas de distanciamento social. 

Não são mais permitidas, por exemplo, reuniões públicas de mais de duas pessoas, a não ser que sejam membros da mesma família ou seja uma reunião de trabalho. Foi determinado também o fechamento do comércio considerado não essencial e o funcionamento de restaurantes apenas na modalidade de entrega em domicílio. Portanto na Alemanha para conter a proliferação do vírus, também utilizou-se da estratégia do distanciamento social. 

QUARTO FATOR: SISTEMA DE SAÚDE ALEMÃO 

Outro aspecto ressaltado por autoridades globais de saúde é o sistema de saúde pública da Alemanha, maior economia europeia.

O país tem uma das maiores taxas de leitos hospitalares por habitante do mundo, sendo o quarto entre os 40 países que integram a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), conhecida como clube dos países ricos.

A Alemanha tem 8 vagas para cada 1.000 habitantes, diante as 3,2 na Itália, a maior concentração de hospitais na Europa (1.900 para 82 milhões de habitantes) e 28 mil leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

Conclusão

Podemos concluir que a estratégia da Alemanha contou com sua visão de antecipação, através de um sistema de monitoramento, testes na população de graça, visando não paralização de indústrias essenciais, distanciamento social para contenção do vírus e um amplo e bem estruturado sistema de saúde. 

Na minha visão, um pilar que os especialistas não comentaram, e que eu considero um dos mais importantes, é a coordenação única, no caso alemão, através do Instituto Koch, que forneceu toda as instruções e protocolos. Pode até ter havido, internamente discussões e visões antagônicas, mas estas não foram para fora, o que mostrava para a população uma união muito forte por parte do governo, gerando liderança e resiliência. No Brasil por exemplo, infelizmente isso não está acontecendo. A desunião é um dos fatores desagregadores que coloca em risco a eficácia das medidas que estão sendo tomadas.   

 

Fonte: Gráfico Comparativo entre as Nações, Site: www.bing.com/covid

Podemos ver que a Alemanha, só não possui a menor curva pandêmica, por causa do Reino Unido, que está em situação inicial e de quarentena. Portanto a estratégia da Alemanha, provou ser eficaz, e deve ser estuda e adaptada pelos países para combater o COVID-19. 

O governo alemão admitiu que os números baixos não garantem que o COVID-19 não causará estragos no sistema nacional de saúde. Isto em função da amplitude dos testes realizados e porque ainda não há vacina ou remédio. 

Outro ponto a ressaltar é sobre o distanciamento social, integrado com a quarentena, onde o governo alemão pensa em ser mais rigoroso nas regras para achatar a curva e conter a contaminação. 

Uma das lições aprendidas foi que, embora os exames possam ser caros, o exemplo alemão de exame gratuito para os cidadãos deve ser seguido globalmente, pois, pode ajudar a minimizar os efeitos negativos da pandemia na economia. Os testes não são baratos ou fáceis de serem realizados em larga escala. Mas os custos socioeconômicos do fechamento de empresas e indústrias também são amplos e se tornam relevantes à medida que a pandemia cresce.  

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