GESTÃO

Incêndio em Shopping Center: um risco inerente, iminente
e de impactos severos

Dr. André Vicente dos Anjos ,Ph.D., CPSI,CIGR,
Doctor Of Philosophy In International Security Sciences, PhD. – Cambridge Internacional University; Especialista em Segurança Pública e Privada; Especialista em riscos corporativos; Coordenador de Segurança Sênior; Docente.

No ano de 2018, O shopping Zimnyaya Vishnya, na cidade na cidade siberiana de Kemerovo, foi atingido por um incêndio de grandes proporções, que deixou, segundo as autoridades locais, mais de 64 mortos e outros tantos feridos. Por conta do grande número de pessoas vitimadas, o incêndio em Kemerovo se tornou um dos quatro maiores na Rússia nos últimos 100 anos e considerada uma das grandes tragédias registradas no país.

A consolidação de dados estatísticos deste tipo de ocorrência no Brasil ainda não apresenta uma base sólida e especifica para o ambiente shopping center, mas uma pesquisa em duas diferentes fontes permite avaliar que a incidência deste tipo de risco é uma realidade no varejo brasileiro e mais que isso, os dados mostram crescimento preocupante nas ocorrências registradas entre 2015 e 2019.

O Instituto Sprinkler Brasil (ISB), mantém estatísticas atualizadas desde 2012 e faz um relevante trabalho de monitoramento destas ocorrências. O ISB contabilizou 531 ocorrências de incêndios em diferentes tipos de estruturas somente no ano de 2018. Do total de incêndios monitorados, 35,8% são atribuídos ao mercado de varejo em geral, ou seja, são 190 registros feitos em lojas, mercados e shoppings centers. Situação preocupante para o segmento.

Ainda que não trate especificamente do tipo de negócio proposto no artigo, o blog Segurança Contra Incêndio compila as notícias relacionadas ao tema divulgadas na mídia. Uma pesquisa mais aprofundada no conteúdo de acesso público, nos permite contemplar os impactos deste risco nos diferentes locais onde ocorreu. Os registros mostram de forma clara a severidade dos danos causados por este tipo de risco materializado e alguns irreparáveis, como o caso das inúmeras vidas perdidas em Kemerovo, na Rússia.

Um refinamento nas estatísticas das duas fontes citadas permitiu que chegássemos ao número aproximado de 56 registros de ocorrências em shopping center em todo o país nos últimos 05 anos, com um saldo médio de 9 empreendimentos atingidos por ano. O ano de 2019, ocasião da elaboração desta relevante pauta, registra mais que o dobro de incêndios que ano de 2018, fato preocupante haja vista o número de pessoas circulando por dia nestes espaços. O gráfico 1 mostra um crescimento exponencial nos registros dos últimos 3 anos. 

Atentando para o cenário sob um prisma mais detalhado, observa-se que a incidência de incêndios neste ambiente tem sua maioria quantitativa registrada nos empreendimentos das grandes capitais. Não por acaso, mas os grandes centros comerciais, em sua maioria se estabelecem em locais com grandes populações ou cidades menores, onde a renda per capita e as condições da região justifiquem tal investimento (gráfico 2).

Gráfico 1: Evolução do número de incêndios
Fonte: Compilação extraída do Blog Segurança Contra Incêndio

Gráfico 2: Ocorrência registradas por estado
Fonte: Compilação extraída do Blog Segurança Contra Incêndio

A complexidade atribuída a esse risco e o temor que ele gera justifica-se pelos danos ocasionados em razão de sua incidência em alguns dos grandes centros de varejo pais afora, de modo que, por conta da recorrência e crescimento observados nos dados estatísticos, existe a necessidade de um olhar mais criterioso para os fatores de risco.

Notadamente ambos os referenciais não consideram de forma fidedigna algumas informações relevantes sobre as causas e fatores potencializadores dos incêndios registrados e, enquanto profissional atuante do segmento, me compete preencher lacunas de forma assertiva e acrescentar ao conteúdo a informação de que, quase em sua totalidade, os incêndios têm sua origem nas cozinhas dos restaurantes, como o ocorrido no Shopping de Blumenau.

Essa afirmativa se fundamenta pelas estatísticas já apresentadas e pelo fato de que as cozinhas dos inúmeros restaurantes, tanto nas praças de alimentação, como nos corredores do mal dos shoppings, acumulam, em seu sistema de exaustão, partículas de gorduras e resíduos condensados de óleos inflamáveis conduzidos pelo próprio sistema, deixando no interior dos dutos, uma espessa camada residual com alto poder propagador de chamas. Associado a isso, temos o potencial de ignição dos equipamentos de cocção, que resultam na grande geração de calor, aumentando consideravelmente a probabilidade de materialização do risco. 

Por todos os dados apresentados, argumentos expostos e, principalmente em razão dos impactos massivos gerados pelo risco em destaque, é salutar a implantação de um projeto fixo de prevenção contra incêndios, interdependente ao sistema de alarme do empreendimento e com ação direta no duto de transporte dos efluentes do processo de cocção, utilizando o agente extintor CO², capaz de reduzir a quantidade de oxigênio no duto eliminando a possibilidade de propagação do fogo, agindo por abafamento.

Fig. 1: Infografia de um modelo de sistema padrão. Fonte: Macrovenda - Blog

O agente saponificante é utilizado nas coifas e equipamentos de cocção, pois no momento do acionamento, em contato com o ar, forma uma camada espessa de espuma, eliminando o oxigênio da superfície atingida e fontes de calor, proporcionando uma melhoria na sensação térmica do ambiente afetado pelas chamas. Com este aparato instalado em uma cozinha profissional, as chances de um incêndio ocorrer são consideravelmente reduzidas, mas isso não é tudo.

A problemática observada hoje em vários empreendimentos é o fato de que, em razão de prazos apertados para inaugurações e custos considerados elevados, este sistema não é contemplado por parte dos proprietários de restaurantes, que tem optado em assumir o alto risco de operar sem um aparato defensivo completo onde se possibilite a extinção de chamas sem prejuízos a vida ou patrimônio. Além desta questão, algumas destas lojas, preferindo “baratear” os custos, escolhem operar com apenas parte do sistema, gerando a falsa impressão de possuir proteção adequada. 

Não bastassem todos esses potencializadores, a falta de manutenção adequada é uma constante nos restaurantes. Isso mesmo! Alguns empresários delegam esta atividade específica e muito técnica para os próprios funcionários da cozinha, confiando que algumas “vassouradas” ou raspagem com espátula, por exemplo, possam remover as grossas e acumuladas camadas de fluidos oleosos por curvas com ângulos de 90º que chegam até os terraços de shoppings com até cinco pisos. Seria até cômico se não fosse trágico, mas este é exatamente o cenário encontrado em parte destes grandes centros comerciais nos dias de hoje.

Sob pena de responder solidariamente pelos danos causados por todos os riscos ocasionados dentro do empreendimento, cabe a administração manter efetiva e rigorosa fiscalização através de seus prepostos, fixos ou contratados, cujas atividades, entre outras, são:

1) Inspeções periódicas, com objetivo de identificar o correto funcionamento dos componentes de todo o sistema;

2) Manutenção periódica, para corrigir falhas observadas em algum dos componentes essenciais do sistema;

3) Limpeza profunda, a fim de remover as espessas camadas de fuligem acumuladas nos dutos, coifas, equipamentos de cocção e em outras partes do sistema;

4) Inspeções regulares feitas pela equipe de bombeiros civis (treinados) do empreendimento a fim de identificar discrepâncias em evidência em toda a cozinha; 

5) Desenvolver uma matriz de riscos com base na NBR ISO 14.518 que permita avaliar, segundo os critérios da NORMA, o nível de criticidade de cada restaurante; e

6) Notificar as irregularidades encontradas condicionando o devido prazo legal para sua regularização, com fundamento nas normas gerais e/ou regimento interno.

Não somente no segmento shopping center, mas em outros diferentes, o que parece claro como a mais límpida água é que no país as ações de preventivas e preditivas são pouco ou sequer praticadas, ou ainda, sob a rasa justificativa da falta de recursos, tem se permitido que incêndios destruam grandes e importantes edificações. Há pouco não perdemos parte de nossa história contida no Museu Nacional do Rio de janeiro?

O Professor Antonio Celso Ribeiro Brasiliano, membro da Academia Nacional de Economia – ANE e um dos maiores especialistas em riscos corporativos do país, faz uma dura crítica a este cenário de descaso diante dos riscos inerentes e iminentes, advertindo sobre a inércia dos gestores e sobre o fato de silenciarem ante ao risco, permitindo que grandes tragédias ocorram pela falta de posicionamento.

Em que pesem as razões determinantes das boas relações e parceria entre lojistas e administradoras, a segurança da vida de clientes e funcionários deve ter um caráter inegociável, ou seja, a condescendência em casos como este deve ser reduzida ao menor limite, cuja tolerância tenha como premissa a preservação das inúmeras vidas que circulam nos centros de varejo pelo Brasil e posteriormente o patrimônio que pode ser amplamente atingido.

Referência:

Blog Segurança contra Incêndio. Disponível em: < https://blogsci.com.br/category/incendios-em-shoppings/ > Acesso em: 16/12/2019.

Brasilianio INTERISK. Disponível em: < https://www.brasiliano.com.br/revista-gr-125-gestao > Acesso em: 16/12/2019 

Globo. Disponível em: < https://g1.globo.com/sc/santa-catarina/noticia/2019/10/01/shopping-de-blumenau-e-evacuado-apos-pequeno-incendio-em-restaurante.ghtml >

Instituto Sprinkler Brasil. Disponível em: < https://sprinklerbrasil.org.br/instituto-sprinkler-brasil/estatisticas/estatisticas-2018/ > Acesso em: 16/12/2019. 

Macrovenda – Blog. Disponível em: < http://macrovenda.com.br/blog/2017/12/15/sistemas-fixos-de-combate-a-incendio-em-cozinhas-industriais-e-comerciais-co2-e-saponificante/ >

Sputnik News: Disponível em: < https://br.sputniknews.com/russia/2018032610826629-shopping-kemerovo-russia-fogo-mortes-foto/ > Acesso em: 16/12/2019.

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